Veja
26.04.2000

Aula de bom senso
Gustavo H. B. Franco


Vem da experiência, e não da academia, a sabedoria de Mailson da Nóbrega, que acaba de lançar o seu primeiro livro, O Brasil em Transformação (Editora Gente; 324 páginas; 29 reais). Mailson fez de tudo como funcionário público: de gerente do Banco do Brasil no sertão nordestino chegou a ministro da Fazenda, passando por todas as etapas intermediárias. Com a experiência de consultor de empresas, ele se tornou um dos mais importantes economistas brasileiros. Sua própria trajetória pessoal de sucesso, que se parece com a do país, fornece uma explicação para que esse paraibano de Cruz do Espírito Santo se defina como "um incorrigível otimista". Outra é que ele conheceu o passado negro das nossas finanças públicas. É do tempo em que o Brasil tinha quatro orçamentos e funcionava no sistema de repasse e cobertura, coisas de que as pessoas nem se lembram direito. Mailson foi testemunha ocular do que chama, sem rodeios, de "Grande Atraso", a Constituição Cidadã, e ministro da Fazenda durante o pior período de nossa história inflacionária. O homem que viveu todos esses infortúnios simplesmente não consegue deixar de olhar com benevolência para o Plano Real e o futuro do país.

É pena que o livro não traga mais narrativas na primeira pessoa, como a da "copa e cozinha" da redação do capítulo tributário da Constituição. Ou a do fantástico episódio do governador da Paraíba que, por cortesia, ligou para avisar que ia sacar a descoberto do banco estadual a fim de pagar a folha. Naquele tempo o Banco Central nem ficava sabendo (hoje dá cadeia) e o governo federal não podia impedir, pois o então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, tinha feito o mesmo impunemente. Quem viveu essas coisas sabe do que está falando quando observa que, para os políticos, o limite para o gasto público não é a arrecadação.

O leitor não deve enganar-se com o estilo bonachão do ex-ministro. É verdade que ele tem apoiado diversas das mais importantes políticas do governo: o Plano Real, a privatização, a abertura, o Proer e a reforma da Previdência, a extinção dos bancos estaduais e tudo que tenha a ver com responsabilidade fiscal. Mas ele compra algumas brigas de alto calibre. Fala sem rodeios sobre a CPMF como uma " estultice", do ICMS como um "manicômio tributário" e transpira certa impaciência quanto às hesitações do governo na reforma tributária. Avacalha impiedosamente a cultura da gastança, servindo-se de exemplos distantes, como o Livro Branco do Déficit Público dos ministros Bresser e Sayad e a moratória da dívida externa de 1987. Também não poupa ocorrências mais recentes, como o fundo da pobreza do presidente do Senado, a tese do "pouquinho de inflação" do presidente da Câmara e a contabilidade da dívida pública feita pelo PT e pela Folha de S. Paulo. Sem dúvida, ele é da estirpe dos que não se furtam a opinar.

O livro não tem economês e fornece ao leitor um guia para as mudanças que o país vem experimentando nos últimos anos. Os primeiros quatro capítulos, que são inéditos, parecem um volume à parte: tratam de todos os grandes temas de forma integrada quase como se fossem um livro em separado. Os outros sete capítulos formam uma coletânea de cerca de setenta artigos publicados entre 1987 e o início deste ano. Neles o leitor achará verdadeiras pérolas a respeito de todos os temas econômicos dos últimos anos. Ao fim das contas, o leitor não encontrará reafirmações ideológicas, mas muito bom senso.