Veja
22.12.1999

A batalha de Seatle
Gustavo H. B. Franco

A pacata cidade de Seatle, berço da Boing e da Microsoft, testemunhou recentemente uma luta absolutamente desigual: um velho e vetusto conceito, o multilateralismo comercial, e junto com ele a credibilidade política da WTO (Organização Mundial do Comércio), foram ambos estraçalhados por uma criatura própria da volúvel atmosfera do fim do milênio e cujo poder é tão grande que dobrou facilmente as mais importantes lideranças políticas do planeta: o politicamente correto.

Na verdade, a vítima, dirão os diplomatas, era um alvo fácil. O multilateralismo nada mais é que um processo negocial já meio em desuso, tendente a funcionar quando há unanimidades em certa quantidade, e ressalvas a minorias. Nos anos 1950, com poucos países interessados no processo de liberalização comercial, uma forte liderança e muitas barreiras comerciais a derrubar, o processo multilateral de negociação empregado nas várias "rodadas" liberalizantes foi extremamente bem sucedido, apesar da sua complexidade e apesar das ressalvas. Algumas rodadas levaram anos para se completar mas com o comécio internacional sempre crescendo mais que o PIB mundial, havia um incentivo generalizado a participar dessa locomotiva em rápido movimento.

Desde a Rodada Uruguai, todavia, duas tendências tem sido claras: de um lado, amadurece o estatuto jurídico dos acordos sob a égide da WTO e, com isso, os mecanismos de resolução de controvérsias se tornam efetivos. Em conseqüência, e por outro lado, na medida que se tornam praticamente extintas as formas mais tacanhas de protecionismo, as rodadas vão enfrentando problemas de agenda, e enveredando por caminhos novos e nem sempre tão produtivos no plano diplomático e econômico. Novos temas relacionados à alta tecnologia vão soterrandovelhos problemas não resolvidos como o protecionismo agrícola europeu, ou o como mau uso das legislações anti-dumping, que parecem ficar ainda mais difíceis com o tempo. O número de países aumentou, as lideranças se enfraqueceram, e já não existem mais tantas barreiras comerciais como nos anos 1950. Muitos países fizeram aberturas unilaterais, entendendo que eram processos que melhor atendiam a seus próprios interesses. O protecionismo desenvolvimentista que praticamos durante tantos anos apodreceu e caiu de maduro, e o fenômeno está longe de ser apenas brasileiro.

Diante disso, todavia, tínhamos dois bons motivos para não deflagrar mais uma rodada: o processo decisório se tornou mais complexo e a agenda muito mais difusa, tirante os velhos impasses que continuavam do mesmo tamanho que sempre tiveram.

A experiência de Seatle mostrou que havia um terceiro problema a lidar, cujo tamanho foi amplamente subestimado: a hostilidade dirigida ao processo de globalização por parte de uma plêiade incivelmente heterogênea de militantes e ativistas unidos apenas por um profundo e violento mal-estar com relação aos rumos das relações internacionais seja por que estão prejudicando o meio ambiente, extinguindo os empregos, roubando a alma das pessoas, acabando com as especificidades culturais, ou algo no gênero. Talvez tenhamos aí uma espécie de neo-ludismo, ou de reação emocional a mudanças inerentes ao que tem sido chamado de a Era Moderna, ou de desamparo espiritual provocado pela rápida mudança tecnológica, pelo fracasso das utopias ou simplesmente pela solidão.

Talvez essa erupção devesse ocorrer nas reuniões anuais do FMI e Banco Mundial, nas quais os dirigentes das alucinantes movimentações de capitais se encontram para conversar, geralmente sem despertar muita atenção dessas ONGs mais performáticas. Mas o fato é que foi no encontro da WTO que veio esse poderoso ataque do movimento anti-isso-que-aí-está, e os estragos foram enormes. O maior deles talvez foi a facilidade com que os manifestantes, a despeito da falta de substância e coerência de suas demandas, encostaram contra a parede as mais poderosas lideranças do planeta. Foi surpreendente a reação de alguns desses governantes, que se entregaram vivamente ao mais absoluto populismo politicamente correto. Ficou aparentemente consagrada a tese que a WTO não é transparente (!?), que precisa tratar de delicadas questões trabalhistas (na verdade discriminar países onde existe trabalho infantil) e ambientais, além de consagrar sistemas de preferência para países muito pobres (e de comércio pequeno). Tudo muito politicamente correto, mas movido pela mais perversa comunhão de interesses entre ativistas do tipo rebeldes-sem-causa e " lobbies" protecionistas muito bem estabelecidos que souberam utilizar o politicamente correto a seu favor.