Veja
27.3.2002

O candidato da continuidade
Gustavo H. B. Franco 

 

 

Consolida-se cada vez mais a candidatura do governo na pessoa do ex-Ministro da Saúde, José Serra, na exata medida em que se apresenta como a encarnação da “continuidade”, inclusive preconizando medidas e diretrizes para a economia que o Ministro Pedro Malan não seria capaz de enunciar de forma mais clara. Por enquanto, todas as tentativas de enxergar entrelinhas e nuances falharam. Ao que tudo indica, e para a surpresa de muitos, elas não existem.

Não apenas um, mas dois amigos poderosos, meus e do ex-ministro Serra já me fizeram a mesma pergunta, que eles mesmos respondem de forma idêntica: “sabe o que o Serra não gosta no Plano Real e nas políticas de vocês [equipe econômica] ? É que não foi ele que fez, nem é quem está no comando”.

Sendo verdade esta conjectura – e os dois são especialistas em José Serra – as notícias são boas: vamos ter de fato um candidato da “continuidade”, e que acredita sinceramente no que vem dizendo recentemente. Todos os embates e petardos contra a “equipe econômica” teriam de ser revistos, colocados agora sob uma nova perspectiva, pois não eram verdadeiramente divergências de mérito, ao menos nas grandes questões, mas apenas um anseio que talvez se explique num dos melhores versos de Milton Nascimento:

“certas canções que ouço,

cabem tão dentro de mim,

que perguntar carece,

como não fui eu que fiz”

A imagem é a do artista que se identifica de tal modo, ou admira uma obra, ou uma idéia, com tal intensidade, que dela se sente também autor, ou sócio, e dela quer fazer uso como se fosse sua, numa mistura de devoção e vontade de possuir.

O controvertido e genial escritor e crítico americano Ezra Pound (1885-1972) enxerga este fenômeno como recorrente na literatura: em seu clássico “ABC da Literatura”, identifica a obra literária dos que denomina “diluidores”, ou seja, escritores de algum talento, mas que se aproveitam de descobertas de outros, que estão pelo ar, nas esquinas e bares, brotando apenas em algumas fontes específicas de onde o diluidor sabe beber. 

A referência me ocorre a partir de comentários de vários ex-membros da “equipe econômica” que observam, todos perplexos, os escritos de nossos supostos “opositores”, como Bresser Pereira & Nakano e Luiz Carlos Mendonça de Barros, e mesmo as manifestações de condestáveis da FIESP. A perplexidade se explica por que nós, o objeto do revisionismo, e do rancor, sentimos dificuldades em discordar, especialmente se excluídos o adjetivos e um ou outro pecadilho contra a teoria econômica .

Foi Keynes quem disse que os homens públicos que ouvem vozes no ar estão invariavelmente copiando, às vezes sem o saber, às vezes de propósito mesmo, um economista defunto. Defunto ou alheio à competição política, faz pouca diferença. Um experiente Procurador do Banco Central sempre me dizia que, no obscuro ramo dos pacotes e políticas econômicas, nada se inventa, tudo de copia da panóplia de pacotes anteriores.

O diluidor tem méritos indiscutíveis, diz Pound, pois o tirocínio em selecionar e farejar o que é realmente novo e revolucionário é uma qualidade a se respeitar. O compositor Antonio Salieri (1750-1825), do filme Amadeus (para quem não se lembra, uma biografia de Mozart, um extraordinário filme vencedor da oito Oscar), todavia, tomava este atributo como uma maldição: era capaz de perceber toda a genialidade de Mozart, seu contemporâneo, de tal sorte que suas próprias limitações ficavam apenas maiores, mais evidentes e dolorosas de carregar.

Milton Nascimento jamais faria o que Salieri fez com Mozart. E Fernando Henrique jamais deixaria que o seu candidato, quem quer que fosse, se apropriasse ou atacasse o seu legado. Por isso, José Serra está obrigado a assumir a “continuidade”: ganhou a parada no plano político, mas perdeu no plano das idéias. Vencendo ou não, será mais um a se irritar quando acusado de “neo-liberal”.