Veja
30.1.2002

A revolta dos perdedores
Gustavo H. B. Franco 

 

“Destruição criadora” foi um termo cunhado pelo mestre Joseph Schumpeter para descrever os surtos de progresso, mudança e redefinição de vocações, desencadeados por inovações revolucionárias na economia, institucionais, organizacionais e tecnológicas. Não estaremos longe da verdade em alegar que algo assim se passou no Brasil se notarmos que o fim súbito da hiperinflação nos fez experimentar, simultaneamente, as novas realidades da globalização e da estabilização, cujos efeitos foram ainda mais amplificados por programas como a privatização e a abertura.

 

Numa terra que não conhece vulcões e terremotos, e cujas revoluções são bem menos freqüentes e sangrentas que nos países vizinhos, um episódio de destruição criadora como o que se observou especialmente no primeiro mandato do Presidente Fernando Henrique, não poderia deixar de produzir enormes ressentimentos.

 

Como amiúde acontece nesses processos, os perdedores apenas enxergam o lado “destruição” e nada concedem à “criação”. Ademais, como é próprio do Brasil, a responsabilidade pelos danos é sempre do governo, pois nada acontece ou deixa de acontecer se não for pela vontade do governo, fonte de todos os vícios e virtudes nesta terra onde o Estado acha que é maior que a Sociedade. Tivemos, na visão dos perdedores, uma conspiração: um governo mau os atacou pessoalmente ao permitir que forças malignas do exterior aqui aportassem para extraviar nossas riquezas e destruir nosso futuro. A noção de que a competição nos mercados pode produzir perdedores ainda é estranha aos hábitos locais.

 

Há, com efeito, enorme valor simbólico em atribuir nossos problemas a fatores fora do alcance das pessoas comuns, idiossincrasias do governo ou choques externos. Apela-se ao nacionalismo, aos medos primordiais do desconhecido e do escuro, aos custos do Progresso e à irracionalidade do Príncipe, possivelmente mancomunado à Potência Colonizadora, ou em se admitir que somos afetados pelo que se passa na Indonésia, Turquia ou Afeganistão.

 

É deste caldeirão de inquietações que nascem idéias, cada vez mais presentes nos meios de comunicação, que parecem combinar um nacionalismo mercantilista e utilitário, construído de forma oportunista a partir das feridas acima descritas, e um ativismo iluminado a partir do desencanto com as políticas públicas (não) intervencionistas dos últimos anos e da ilusão de que existem heróis que podem usar a máquina do Estado para a redenção do país, e mais especificamente das elites perdedoras.

 

Este neo-messianismo professa e alega dispor da capacidade para interferir nos “complexos industriais”, mobilizar professores universitários tornados reguladores para ensinar os administradores desses “complexos” a trabalhar e guiá-los para a virtude, de onde sempre e necessariamente se afastam em razão de sua natureza má. De forma análoga, alega-se que nossas defesas contra a globalização estão baixas, e que os muros têm de ser elevados. Acredita-se no uso iluminado e seletivo do protecionismo, da política industrial e da substituição de importações, a despeito das barbaridades perpetradas no passado sob estas rubricas. Acredita-se também que o país estaria bem melhor com um dólar a R$ 3,50 a fim de fazer renascer os mega superávits comerciais, e a este projeto incendiário e irresponsável chegaram a chamar de “âncora do desenvolvimento”. Na verdade, não temos aí projeto algum senão os perdedores da modernização buscando sua indenização.

 

Em oposição a esta gente existe basicamente o bom senso, que não é monopólio de apenas uma escola de pensamento. Diante da idéia de que existe uma conspiração alienígena para nos escravizar, o bom senso consiste em enfatizar as fraquezas da economia doméstica, ou seja, em não procurar no exterior a origem dos nossos problemas, mas aqui bem debaixo de nossos narizes, na área fiscal, tributária, previdenciária, trabalhista, regulatória, enfim, nas áreas os problemas são bem conhecidos e onde o governo procurou fazer reformas nos últimos anos e teve sucesso apenas muito parcial.