Veja
08.12.99



A culpa é do Bug

Gustavo H. B. Franco

 

O "San Jose Mercury News" (SJMN) é um dos mais prestigiados jornais locais dos EUA. A cidade está no epicentro deste verdadeiro terremoto tecnológico e econômico conhecido como o "Vale do Silício". Compreende-se, portanto, que editoria de "Ciência e Tecnologia" do SJMN esteja entre as melhores do país. Mes passado o SJMN publicou um caderno especial sobre o chamado "Bug do Milênio" a partir do qual pode-se medir a ansiedade que existe sobre o assunto nessa região. O caderno sugeria aos leitores um "kit" de trinta coisas essenciais para toda familia ter em mãos na passagem do ano. Desse "kit" constam, dentre outros ítens, água (um galão por pessoa/dia), comida em lata, abridor de lata (é claro) sacos de dormir, rádio de pilha, fósforos, velas, papel de alumínio, sacos de lixo, extintores de incêndio, lanternas, martelo, pregos, luvas, chapeu, óculos escuros, botas, luvas de trabalho, apitos, sabão e papel higiênico. A julgar pela lista, o leitor (de lá e daqui) está autorizado a acreditar que o "Bug do Milênio" fará com o Vale do Silício mais ou menos o que o Plano Collor fez com o Brasil.

Como existem ainda muitas pessoas que não têm tantas afinidades com computadores, imagino que muitos leitores não saibam exatamente no que consiste essa catástrofe com data marcada. É simples: em antigos programas de computadores, onde eram alocados apenas dois dígitos para o ano, a virada de 99 para 00 fará com que a máquina entenda que estamos em 01/01/00, ou seja, que passamos para uma data passada, o ano da graça de 1900. Esse entendimento, ou desentendimento, poderá fazer com que comandos indesejáveis sejam executados. Por exemplo: algumas caixas fortes do Banco Central do Brasil abrem automaticamente uma vez por mes. A não correção desse programa provocaria a abertura automática na meia noite de 1999 para 2000, e se esses cofres fortes falasem, ainda pediriam desculpas pelo atraso de mais de um século.

Coisas muito piores podem acontecer, por exemplo, com computadores de aviões, de companhias de eletricidade e de telefonia. O desempenho recente dessas últimas, em particular, deve motivar o leitor a acrescentar a seu "kit" algum dispositivo mais primitivo de comunicação, como pombos-correio ou tambores.

Autoridades regulatórias mundo afora têm estado muito ocupadas impondo diretrizes às entidades sob sua influência a fim de garantir uma transição tranquila. O que, muito provavelmente, ocorrerá. Todavia, o esforço colocado nesse tema tem sido de tal ordem que o preparativo começou a gerar tanta confusão, ou pelo menos tanta despesa, quanto o problema em si. Essa conjectura é firmemente apoiada pela disparada no preço da hora de trabalho dos programadores que mexem com antigas linguagens de computador. Subitamente, o Bug se tornou um problema, ou pelo menos um pretexto. Quem está em dúvidas sobre um investimento, por exemplo, sempre poderá dizer que, antes do Reveillon, nada feito. As exportações não estão reagindo à ultra-maxi-desvalorização, ou as entradas de capital estão fracas, a culpa é do Bug. Depois do Reveillon, tudo se normaliza.

Bem, deve-se também notar que existe um movimento de "bug-céticos" que, sem prejuízo do profundo respeito que todos devemos ter pelas possíveis conseqüências do Bug (e da maxi), já de algum tempo acha que as coisas estão indo longe demais. Alguns fundadores do movimento, no capítulo brasileiro, alegavam que num país que já passou por tantos choques econômicos, geralmente fazendo as empresas reinventarem suas atividades durante um fim de semana, ou num exíguo feriado bancário, o Bug era, para usar usa expressão antiga e "low tech", café pequeno. Outros acrescentavam que o Brasil havia entrado atrasado na era da computação e que não existiam muitos programas antigos, feitos com os tais dois dígitos. Outros, mais bem informados, diziam que Bugs semelhantes haviam passado sem que ninguém notasse. A data 9/9/99, por exemplo, era perigosísssima, pois muitos programas antigos usavam 9999 como sinalizador de "fim de arquivo". Passou e não aconteceu nada.

De toda maneira, tanto o Bug quanto o "medo do Bug" terão passado em pouco mais de um mês, após o que tudo se normaliza, ou não.