Veja
14.12.2001

Eleições e a economia: o que pensam os candidatos?
Gustavo H. B. Franco 

 

 

Como sempre acontece, é a economia que vai decidir a eleição, ou mais precisamente, o que os candidatos vão dizer sobre a economia. Embora se admita que, na esfera da política, é prematuro esperar manifestações com substância sobre temas econômicos, o assunto está muito vivo nos mercados, onde o tempo funciona de forma singular e os eventos todos ocorrem bem antes de suas respectivas datas.

 

Esses famosos e temidos senhores - os investidores - nacionais e estrangeiros, estão curiosos sobre as propostas econômicas dos pretendentes à Presidência. Querem saber se compram ou se vendem, se constróem fábricas ou colocam o dinheiro no “overnight”. Não estamos falando de especuladores, mas de todos os atores do processo econômico, assalariados, industriais, donas de casa, poupadores grandes e pequenos, que legitimamente têm dúvidas sobre o futuro.

 

A economia está meio encrencada, e as incertezas seriam menores se soubéssemos exatamente quais são as diferenças, se é que existem, de pensamento econômico entre o governadores Garotinho, Itamar Franco, Tasso Jereissati e Roseana Sarney, o ex-ministro Ciro Gomes, o ministro José Serra, o senador Eduardo Suplicy e mesmo o candidato Lula agora, segundo se diz, em versão “light”.

 

O grupo tem em comum, abstraídas diferenças de etiqueta e adjetivação, o fato de todos alinharem-se no campo da oposição, com a possível exceção da governadora Roseana, e mesmo assim por presunção. Já vão se aproximando as eleições e o que se ouve sobre economia me faz lembrar o personagem título de um filme de Woody Allen: Zelig, um homem que encarnava aquele de quem se aproximava, sendo de pouca importância a sua verdadeira identidade. Aos literalistas em matéria de democracia aqui vai um sofisma: quem disse que candidato a presidente deve ter uma identidade muito clara? Ele, ou ela, não deve apenas e tão somente expressar a vontade do eleitor, e não necessariamente a sua?

 

Nessa linha, deve ser considerado normal que os presidenciáveis não tenham um Projeto no sentido maiúsculo do termo e que estejam esperando que seus marqueteiros, e respectivas pesquisas, lhes informem sobre os desejos do eleitor, incluindo a indumentária do candidato, seus “slogans” e palavras de ordem, sem esquecer o indefectível “programa de governo”, documento obrigatório e de amplamente reconhecida e desculpada irrelevância.

 

Mas a despeito da cortina de fumaça habilmente construída pelos condutores da eleição, todos publicitários profissionais da melhor estirpe, devemos acreditar que o eleitor sempre será capaz de vislumbrar, ainda que no último instante, o que os candidatos e suas equipes realmente pensam sobre a economia. Seria ótimo que houvesse mais clareza sobre isso no início do jogo mas, infelizmente, neste momento, o pensamento econômico dos candidatos é um mistério.

 

Seguramente, isto vale para os postulantes do campo governista pois o pouco que deixam escapar sobre economia parece difícil de distinguir do que vem dizendo a oposição. Fica, assim, cada vez mais descaracterizada a continuidade das políticas do atual governo, especialmente se considerarmos as do primeiro mandato, época em que o governo era popular e tinha um Projeto muito bem definido. Neste cenário, o eleitor deve estar se perguntando: se o candidato do PSDB vai mudar as coisas, qual é mesmo a direção? Foi divulgado, por exemplo, que José Serra, caso eleito, manteria Arminio Fraga em seu posto, “pelo menos no início”, o que já se ouviu de Cristovam Buarque. A interseção entre o pensamento econômico de José Serra e de Armínio Fraga, pelo que se conhece de ambos, e até prova em contrário, é um conjunto vazio.

 

A falta de projeto vale também, e não surpreendentemente, para o PT, e para seu eterno candidato, e por uma razão simples: o contrário de um Projeto, ou seja, o “contra isso tudo que aí está”, não é um projeto alternativo, do mesmo jeito que, colocar uma pintura de cabeça para baixo, se você não gosta dela, não criará uma pintura “alternativa”, será apenas falta de educação artística.