Veja
12.08.2001

Incêndios e bombeiros
Gustavo H. B. Franco 

 

Está difícil de entender a postura na nova administração republicana com relação a países emergentes em dificuldades. Daqui do Brasil, tenha-se claro, nada a objetar ao novo programa com o FMI que nos brindará com mais US$ 15 bilhões no contexto de uma continuação levemente modificada do acordo já em vigor. Mas como interpretar, senão como castigo, o fato de a Argentina receber do FMI apenas um adiantamento de um solitário bilhão, tendo em vista que é lá que está o problema? Qual a razão da “punição”? O que pretendem os americanos?

 

O noticiário sobre a Argentina pode facilmente conduzir o leitor, e mesmo as autoridades americanas, à idéia de que os argentinos estão fazendo algo profundamente errado ao fixar sua taxa de câmbio com relação ao Dólar, e deixá-la flutuar com relação ao Euro e ao Real. É preciso lembrar que nada de diferente foi feito nos países da União Européia - Portugal, Espanha e França, por exemplo - que fixaram suas taxas de câmbio com relação ao Euro e as deixaram flutuar com relação ao Dólar e ao Real.

 

O problema, portanto, não é o “câmbio fixo” em si, mas o país estar aprisionado a uma paridade “errada”. Ou melhor, uma paridade que podia estar correta no momento de sua fixação, faz mais de uma década, mas que, com o tempo, ficou “errada”. O mesmo pode ocorrer, é claro, daqui a 10 anos com qualquer país da União Européia. Pode ser uma inflação maior que a dos vizinhos, ou um diferencial de produtividade, que faz, por exemplo, os preços das mercadorias produzidas na Espanha ou na Itália, se tornarem mais caras ao longo do tempo. Ou pode ser um fator externo, como o fechamento do mercado de capitais, ou uma mega desvalorização num país vizinho.

 

O que está se passando com a Argentina, portanto, pode perfeitamente acontecer com qualquer país europeu no futuro, e caso aconteça, não será encontrada nos estatutos da União Européia nenhuma solução diferente de um financiamento acompanhado necessariamente de um programa de ajuste. É claro que a natureza exata deste programa dependerá muito do que aconteceu para tornar a paridade “errada”. Se tiver sido irresponsabilidade fiscal e inflação, a receita é conhecida. No caso de um vizinho que desvalorizou, ou de mercados de mau humor, as coisas ficam mais incertas. De um modo ou de outro, a troca de paridade, tal como a saída de um país da União Monetária Européia, seria dificílima de fazer. Uma nova moeda nacional teria de ser construída, fiduciária e flutuante, e provavelmente em fases, como fizemos aqui com a URV. É preciso criar a mercadoria que se quer desvalorizar, e em vista da complexidade do processo, as chances de uma transição pacífica dependeriam muito do nível de apoio político e do tamanho do financiamento externo.

 

O fato é que quanto mais se adia o financiamento e o programa de ajuste mais a situação vai se deteriorar, maior será o sofrimento dos argentinos e de seus vizinhos, e mais cara vai ficar a solução. A situação poderia estar muito melhor se o pacote da “blindagem” não tivesse fracassado em razão da não participação dos americanos, e esta foi uma das primeiras decisões da administração Bush. Caso os democratas tivessem vencido, o pacote seria bem maior. Naquela ocasião, não fora o extraordinário talento de nossos vizinhos para tornar grandioso tudo o que fazem, poderíamos ter antecipado a crise hoje instalada. Agora os americanos estão novamente diante da mesma decisão e vai ser muito mais difícil ocultar, para não falar em explicar, um “não”. Por isso, os argentinos passarão o fim de semana nos EUA esperando por um “sim”.

 

Tem-se a sensação, em conclusão, que os bombeiros foram chamados para a América do Sul, mas em vez de atacar o foco do incêndio, forneceram extintores para o apartamento logo acima. Pode-se perguntar que espécie de lição os bombeiros estão querendo ensinar aos proprietários do apartamento em chamas? O fato é que, a julgar pela reação morna ao nosso pacote, os US$15 bilhões fariam melhor a nós, brasileiros, se fossem dados aos argentinos.