Veja
04.07.2001

Sete anos de Plano Real
Gustavo H. B. Franco 

 

 

 

Comemorar o aniversário do Real já perdeu a graça. Por mais que o dólar esteja maltratando a nossa moeda nos últimos tempos, a inflação, felizmente, não dá sinais de acordar. Graças a diversas transformações químicas, reformas e cirurgias tornamos- nos uma economia estável, e estamos felizes assim. Apenas um monumental conjunto de políticas irresponsáveis, no próximo governo, poderia trazer de volta a hiperinflação. Mas não se concebe tal coisa, seja qual for o vencedor em 2002.

 

Não obstante a perda de brilho da cerimônia, é sempre bom recordar que em fins de 1993, pouca gente acreditava no Real, mesmo dentro do governo, onde teve gente saindo de fininho, ou se escondendo debaixo das mesas para não se comprometer. Tinha gente querendo fazer “Currency Board” (Caixa de Conversão) no estilo argentino, gente torcendo para as coisas darem mais ou menos certo, e gente sem entender o que se passava. Vários desses estão aí, candidatos a herdeiros da construção bem sucedida. Política é uma nuvem, não é mesmo ?

 

No campo da oposição, a surpresa com o sucesso da nova moeda, e com a assimilação da URV (Unidade Real de Valor) em particular, levou os membros dos Comitês Centrais de cada partido a adotarem, desde o início, uma leitura da Marcha das Forças Produtivas segundo a qual o Plano Real era uma conspiração burguesa baseada num artificialismo, um truque como tantos outros anteriores, desta vez com base no câmbio. A oposição ficou, desta maneira, prisioneira de um diagnóstico errado do qual não conseguiu mais se livrar nem mesmo na eleição seguinte, quatro anos depois.

 

Justiça seja feita, no campo da oposição à direita, e no mercado financeiro a aposta era semelhante: o ex-ministro Delfim Netto deu 4 meses de vida para a nova moeda e muita gente graúda se armou, no mercado e nos tribunais, para atacar a nova moeda. Todos deram com seus burros n’água. Em pouco mais de dois anos a inflação tinha caído de 5.500% anuais para “níveis internacionais” (2% em IPCs, zero em preços por atacado). Ninguém imaginava que fosse funcionar tão bem, tão rápido e sem recessões nem piruetas heterodoxas.

 

Assim sendo, cada aniversário do Real representa mais um tabefe na tese de que houve “erros flagrantes”, “populismo cambial” e outras flores do pântano em que se tornou a cosmologia revisionista da oposição sobre o sucesso do Plano Real. Erro mesmo, a julgar, inclusive, pelas pesquisas de aprovação popular, foi o do Presidente da República em acreditar nessas teses, agora inteiramente estraçalhadas pela realidade. Ou seja, se o problema era a chamada “sobrevalorização cambial”, como então ainda estamos encrencados depois dessa avalanche interminável de maxi-desvalorizações? A flutuação cambial não era para fazer os juros cairem? Cadê o “crescimento sustentado” que estava represado pela “vulnerabilidade externa”?

 

Agora que estamos nos aproximando das eleições observa-se, especialmente nos crentes no Bom Velinho, a percepção de um “amadurecimento” da oposição que, quase uma década depois, reconhece que o Plano Real foi uma grande conquista. Ou seja, os bravos membros do Diretório Nacional, de conformidade com o banho de loja promovido pelos camaradas marketeiros, decidiram contratar os serviços do senhor Winston Smith, protagonista na novela “1984” de George Orwell, e especialista em reescrever noticias em jornais velhos para fazê-las consistentes com as novas resoluções do Grande Irmão. Já se percebe o dedo de Smith no novo documento & programa do PT, por exemplo, que some com Trotsky da fotografia e adota uma atitude benigna com relação à estabilização. 

 

Tudo isso é muito bom, pois aponta no sentido do primado do bom senso, ainda que por fingimento. O Real entra em seu oitavo ano, todavia, sem herdeiro na disputa eleitoral, pois todos os candidatos listados, inclusive o do governo, são de oposição. Mas no plano conceitual a vitória é avassaladora, pois afora o MST, o Eneas e o PC do B, teremos um grandioso debate sobre adjetivos.