Veja
03.11.1999

Literatura e economia
Gustavo H. B. Franco

A crise da Ásia parece ter aberto a temporada para as grandes narrativas sobre vias alternativas para o Brasil. Dos diversos títulos recentes nessa veia destacam-se, inclusive pela qualidade literária, dois de apelo ao futuro ("A Segunda Via" de Mangabeira Unger e "A Opção Brasileira", de diversos autores vinculados aos chamados "movimentos sociais"). Existem muitos outros, bem menos interessantes, com ênfase na zanga e na denúncia.

A estética, aliás, é um dos aspectos mais salientes da literatura anti-globalização hospedada principalmente na França. O "Horror Econômico" de Vivienne Forrester, tem qualidades indisputadas: é uma extraordinária mistura de Rimbaud com Euclides da Cunha (da primeira metade de Os Sertões), de grande impacto sobre o leitor. Mas no domínio do conteúdo estritamente econômico, o que temos é muito pouco: uma pregação protecionista contra as importações vindas de países emergentes (como o nosso!) que (supostamente) usam trabalho infantil, degradam seu meio ambiente e não dispõem de leis trabalhistas "modernas".

O mesmo vale para o belo texto do professor Unger, quando despido dos enfeites da boa escrita. A parte mais picante do texto, a renegociação forçada da dívida pública, é descrita em detalhes dignos de um especialista em Max Weber. Nada de se estranhar nesse ramo. Alguns anos atrás, num texto que ficaria famoso, um economista da universidade de Iowa, Donald McCloskey, argumentaria que a economia estava condenada a um vaticínio comum às outras ciências: a necessidade de persuadir. E por isso mesmo, dizia ele, o discurso econômico jamais será apenas conteúdo, por mais matemático que seja, pois sempre terá de utilizar os meios e os berloques da linguagem. Ou seja, a retórica era um componente fundamental de um empreendimento intelectual cujo objetivo não era o Conhecimento mas o Convencimento.

Podia ser preocupante imaginar que, no domínio da economia, a retórica pudesse adquirir dominância sobre o conteúdo, mas aqui no Brasil muita gente sempre gostou de pensar que devemos praticar uma "economia política", que deve servir às boas causas. Esses economistas funcionam como advogados, no terreno da interpretação, ou da ambigüidade, na defesa de suas teses. Outros acreditam, talvez ingenuamente, em objetividade científica e numa disciplina despida de ornamentos retóricos e onde a matemática previne raciocínios errados. O fato é que o divórcio entre esses grupos parece cada vez mais litigioso. Os primeiros isolam-se na academia, numa linguagem impenetrável e na busca de uma ciência quase abstrata, enquanto os outros, dado que inteiramente dedicados à persuasão, terminam também perdendo contato com o seu objeto de estudo.

O mesmo litígio avança em outras áreas de formas bem mais estridentes. Uma já famoso "golpe baixo" foi desferido por um professor de física da Universidade de Nova Iorque, Alan Sokal, que teve aceito e publicado um artigo em uma revista acadêmica de vanguarda (chamada "Social Text"). O artigo chamava-se "Transgredindo as fronteiras: na direção de uma hermenêutica transformativa da gravidade quântica" e era uma colagem de citações verdadeiras e falsas formando um texto deliberadamente sem conteúdo. Uma fraude bem urdida que, para alguns, era o triunfo definitivo da retórica sobre a razão.

Mais interessante ainda, nessa mesma linha, é o site "Gerador de pós-modernismo"
(www.csse.monash.edu.au/other/postmodern.html) que através de um programa semelhante aos utilizados em traduções (chamado "Sobre a simulação do pós-modernismo e debilidade mental usando redes de transição recursivas") e acessível no site, é possível gerar de forma aleatória e destituída de qualquer sentido um ensaio sobre um tema "pós-moderno" mais ou menos como o de Sokal: de umas 15 páginas e com umas 50 referências bibliográficas, algumas das quais de verdade. Experimentando, obtive, numa primeira tentativa, o fascinante "Surrealismo e o discurso habermasiano". Numa segunda "A hermenêutica da dialética: realismo, socialismo e a narrativa neocapitalista". Tente você mesmo, e tenha sua própria senha para a pós-modernidade, o seu próprio exemplo de retórica cativante e sem conteúdo. Veja como é fácil. A experiência não chega a ser muito transformadora, mas termina nos fazendo todos mais cuidadosos com o palavreado altissonante de algumas narrativas sobre o futuro do Brasil.