Veja
01.10.2000

O Euro e o Esperanto
Gustavo H. B. Franco

A idéia de que o mundo tem moedas demais, ou talvez, quem sabe, países demais, se parece com outra, bem mais antiga, remontando a Descartes e Leibniz, a de que, como temos línguas demais, um idioma completamente artificial, com uma gramática simplificada poderia servir para unir as Nações. O mais antigo desses esforços é do Bispo John Wilkins, de 1688, mas inúmeros outros se seguiram nos três séculos subsequentes. A 14ª edição da Britanica registra, por exemplo, o Solresol (1817), Lingualumina (1875), Blaia Zimondal (1884) além de uma dúzia de outras. A mais bem sucedida delas todas, o Esperanto, de 1887, foi ganhando adeptos numa escala impressionante até os anos 1920. Mais de 30 mil livros foram traduzidos para o Esperanto, diversas variantes (Dutalingue, Adjuvilo, Intal dentre inúmeras outras) e ainda hoje, estima-se que mais de dois milhões de pessoas falem a língua ou alguma de suas variantes.

Algumas obras de ficção criaram idiomas artificiais, como a famosa Novilingua do romance "1984" e o idioma de gírias falado em "A Laranja Mecânica". Curioso mesmo é o caso da língua falada no Império Klingon, inventada em 1984 por um doutor em linguística de nome Marc Okrand para o filme "Jornada nas Estrelas III: à procura de Spock". Fãs do seriado reúnem-se em inúmeros clubes, convenções e sites, e patrocinam encontros, saraus e até casamentos onde se fala apenas Klingon. Existem jornais em Klingon, cursos da língua oferecidos por um Instituto sediado na Filadélfia, o qual está prestes a completar a tradução das obras de Shakespeare e da Bíblia.

Tudo isso é muito curioso, mas o fato é que os "idiomas artificiais mundiais", a despeito de todas as suas vantagens teóricas, não têm nenhuma utilidade prática. No terreno dos idiomas, como no das moedas, parece prevalecer uma espécie de meritocracia, que os economistas designam pela expressão "externalidades de rede", que estudiosos da economia da alta tecnologia conhecem muito bem. O conceito é simples: quanto mais gente usa, mais fácil e barato de usar. Esses "retornos crescentes de escala", para usar mais um vocábulo em economês (uma dessas línguas artificiais não tão mal sucedida quanto as outras) resultam em estabelecer padrões. Como hoje são o dólar e o inglês. Por isso se usa o VHS (para os vídeo K-7s) e não o Betamax, que era melhor, e um teclado para máquinas de escrever cuja seqüência de letras (QWERTY, como está na segunda fila, da esquerda para a direita) que não tem nenhuma razão de ser.

Mas voltando às moedas do mundo: quando a União Soviética se desintegrou em duas dezenas de novas repúblicas, cada qual com sua moeda nova em folha, em substituição ao Rublo, ninguém achou que estavam sendo criadas "moedas demais". A tese apareceu pela mão dos defensores do Euro e da adoção de "currency boards" e agora, está sendo atacada exatamente por esses dois caminhos.

Não há muito precedente para o que veio a ser o Euro, uma moeda artificial regional. Existiram muitas "moedas-convênio" de natureza escritural, que só serviam para comércio exterior. Ainda existem os Direitos Especiais de Saque (DES) junto ao FMI que serviriam como uma "moeda internacional de reserva" inteiramente artificial. O FMI ainda hoje, faz empréstimos e os contabiliza em unidades de DES, mas "emitir" DES eles não fazem desde ...

O Euro é uma "moeda artificial internacional" emitida pelo primeiro banco central supranacional que se conhece. Diversos países são sócios e no sistema de um-país-um-voto. O mesmo que a Federação Carioca de Futebol adotou depois que a Guanabara fundiu-se ao Rio de Janeiro. Antes, os clubes votavam conforme o número de campeonatos e os grandes mandavam. Depois, cada um dos sessenta e tantos clubes do interior passou a ter um voto, e o resultado foi a eleição e posterior perpetuação do popular Caixa D’Água. Com ênfase nos pequenos, o futebol carioca não experimentou muito progresso. O Banco Central Europeu pode ter de aceitar a Eslováquia, a Turquia e a Croácia, ao tempo que Dinamarca, Inglaterra e Suécia podem preferir ficar de fora.

O fato é que o famigerado mercado não achou o arranjo muito bom: o julgamento dado pelas cotações foi implacável.