Veja
13.09.2000

O menino e a dívida
Gustavo H. B. Franco

Uma das cartas (e-mail, na verdade) mais extraordinárias que esta coluna já recebeu veio nesta semana de um menino de 13 anos, de Goiania, que está vivendo um drama: "Estou precisando de material para um trabalho de escola: dívida externa do Brasil, FMI etc. Este trabalho vale nota e como está dificil encontrar, minha mãe indicou o senhor. Ela lê sua coluna toda semana e diz que o senhor é fera".

A despeito do fantástico elogio, a carta me deixou angustiado, pois não vou conseguir ajudar. Tenho dois filhos mais ou menos da mesma idade e que também têm professores que, às vezes, lhes dizem barbaridades sobre o governo, os bancos, a taxa de juros e a privatização. É não há nada o que se possa fazer. É difícil encontrar algum material de boa qualidade para estudantes do curso secundário sobre temas de economia, especialmente os do noticiário.

Mas, de novo, lá fui eu vasculhar minha biblioteca, desta vez para ajudar Diego, o menino de Goiania, e novamente saí frustrado. Voltei a encontrar "O Capital" em quadrinhos e alguns volumes de uma coleção de livretos "O que é?", sobre "imperialismo", "mais valia" e coisas do gênero. Pura doutrinação. Exultei quando encontrei um "ABC da Dívida Externa", escrito em 1989, por Celso Furtado, exatamente com o propósito de usar de uma "linguagem simples" para explicar o problema. Mas depois de ler, e com todo o respeito ao mestre, devolvi o fino volume à estante. O problema do Brasil, conforme ali se explica, é a vultosa e absurda "transferência de recursos ao exterior", um conceito popular naquele tempo e que corresponde ao que hoje chamamos de superávit comercial. Curiosamente, em nossos dias, tem muita dizendo que o problema do Brasil é a falta de superávit comercial.

É claro que, no mundo dos economistas, tudo tem pelo menos duas explicações inconsistentes entre si e uma terceira, bem mais simples e errada. As querelas podem ser instigantes, mas o menino tem 13 anos. Pensei então em indicar um livro de época: nossa experiência com dívidas no exterior é muito rica. Jorge Caldeira bem que podia escrever sobre isso, mas sei que ele já está bem ocupado em revisar as trinta e oito camadas de interpretações marxistas da história econômica do Brasil.

Algumas outras alternativas me ocorreram até que, diante de um estalo, parei o que estava fazendo: esse menino não tinha nada que estar trabalhando nesse assunto. Na faculdade de economia o tema entra em pauta lá pelo quinto ou sexto semestre, quando os alunos já aprenderam contabilidade nacional e macroeconomia, já dirigem automóvel e estão estagiando em empresas que tomaram dinheiro emprestado no exterior. Alguns já têm empregos onde ganham mais que o professor.

É aceitável o argumento que pré-adolescentes devam tomar algum contato com as grandes questões de nosso tempo. Mas a dívida externa está longe de pertencer a esta categoria. Podemos estar na presença de um erro de dosagem do professor, semelhante ao da própria CNBB que traz um tema complexo para o fôro errado e acaba causando confusão e fornecendo alento ao oportunismo político dos velhos caloteiros de sempre. Ou não. Me incomoda deveras a possibilidade de algumas escolas secundárias estarem impingindo a meninos de treze anos as visões obtusas e amalucadas que aparecem, por exemplo, no "Veredicto" do "Tribunal da Dívida Externa" que o leitor poderá encontrar no site do plebiscito da CNBB. Me pergunto que espécie de material está sendo disponibilizado para Diego e seus colegas de Goiania e de outras partes do país, e também que tipo de aprendizado sobre o ser humano a CNBB espera promover com o esforço de "conscientização" que parece acompanhar o plebiscito.

De toda maneira, fracassei em indicar material para o trabalho do menino pois tudo que pude aconselhar foi o exercício do senso crítico, inclusive quanto ao professor, sem dúvida, uma responsabilidade um tanto pesada para um menino dessa idade.