Veja
24.05.2000

Choques de capitalismo
Gustavo H. B. Franco

 Em 1989, o então candidato à Presidência, Mário Covas, fez um pronunciamento que poderia estar, seguramente, entre os melhores momentos do Parlamento. O conteúdo talvez não fosse tão consagrador, especialmente se analisado em vista o que se passou nos anos que se seguiram. Mas criou-se aí uma expressão perfeita, uma síntese bem mais ampla e poderosa do que era percebido até pelo autor: “O Brasil precisa de um choque de capitalismo”, ele disse, e nem foi preciso entender o resto do discurso.

Pena que, aos olhos do eleitor, foi o candidato Collor que melhor capturou o desejo da sociedade em ver um país com menos privilégios e mais mercados, ou seja, um país com mais mecanismos impessoais de definição de vencedores no jogo econômico. “Marajás” e “carroças” eram metáforas poderosas para a apropriação privada de recursos públicos, fiscais e regulatórios. Foram conceitos que encantaram a uma população cansada de desenvolvimentismo inflacionista (e concentrador), de “política industrial” para os amiguinhos do poder, e de fechadura econômica para acobertar a incompetência empresarial.

Pena (de novo) que fosse um engodo: era apenas um outro político com intuição privilegiada que vislumbrava os anseios da nação, mas tinha sua própria agenda pessoal e, como ficaria claro a seguir, uma quadrilha em torno de si.

Assim sendo, o primeiro “choque de capitalismo” nada mais foi que uma frase de efeito, que até gerou planos por parte da assessoria do candidato do PSDB, o qual, infelizmente, pouco utilizou dessas idéias em sua campanha. Os planos foram para a gaveta, e logo em seguida foram insistentemente procurados pela equipe do candidato Collor, que vencera prometendo coisas para as quais não tinha planos de nenhuma espécie, como a abertura e uma nova política industrial e de comércio exterior.

O segundo “choque de capitalismo”, o do governo Collor, foi como um vendaval asiático: aplicou-se avant la lettre o chamado “capitalismo de quadrilhas”, que como depois aprenderíamos, era a essência de diversos modelos do sudeste asiático baseados em confusão entre o público e o privado, corrupção deslavada e um tempero retórico moderninho.

Mas como o Brasil é um país abençoado, algum progresso acabou tendo lugar em matéria de abertura, desregulamentação e privatização. As mudanças estacionaram durante a Presidência Itamar Franco até o Plano Real, que nos trouxe, finalmente, na terceira tentativa, um já bastante atrasado choque de capitalismo de verdade.

O grau de abertura na indústria saiu de 4,5% em 1989 para cerca de 20% em 1998, e a partir de 1994, empresas responsáveis pela produção de cerca de 3% do PIB foram privatizadas, gerando quase US$ 80 bilhões em receitas. A estabilização se consolidou, a produtividade tem crescido como nunca e o investimento direto estrangeiro voltou com força total. Foram quatro anos do mais puro choque de capitalismo, feito como nenhum de seus proponentes anteriores poderia imaginar.

A má notícia foi descobrir que o preço para esses avanços era encontrar termos de convivência com um novo fenômeno: a globalização. Sem dúvida, nos últimos dez ou quinze anos, não houve outro tema que consumisse mais tinta, e mais gás lacrimogêneo. O aprendizado tem sido intenso, e a conclusão que se chegou, a partir de experiência das trinta e tantas economias “em transição” para o capitalismo, e das emergentes asiáticas e latino-americanas, é que as economias de mercado sem dúvidas vocacionais e com instituições democráticas tendem a se beneficiar da globalização. Ao passo que os regimes “alternativos”, “hesitantes”, ou “neodesenvolvimentistas” passaram a ser vistos assim como whisky paraguaio. O sistema encontrou uma punição exemplar para quem não se enquadra nos consensos internacionais de política econômica: a indiferença.

O Brasil vinha se acostumando com a globalização, mas para economistas “alternativos”, ou nacionalistas que se recusam a mexer em computador, o “terceiro choque” e a globalização ainda são uma enorme fonte de irritação. E justamente neste momento de acomodação, depois de uma pirueta mal sucedida na direção de um “modelo desenvolvimentista”, um “quarto choque” parece se desenhar: os efeitos das novas tecnologias de informação e da Internet em particular. Tudo parece indicar que vamos na direção de um hipercapitalismo, no qual a instituição central do sistema, o mercado, é reinventada e turbinada pela Internet. A competição selvagem e sangrenta, a soberania absoluta do consumidor, a meritocracia mais cruel, e a ausência do Estado são traços marcantes da chamada Nova Economia. Se já havia gente de mau humor com o “terceiro choque”, imaginem então quando a Internet puder ser acessada pela TV, alcançando 99% dos lares brasileiros ...