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    02.02.2000

Capital estrangeiro e a economia nacional
Gustavo H. B. Franco

Nos últimos tempos tem havido muita agitação em torno da presença de um tipo de capital que o mundo inteiro gosta e costuma batalhar para atrair: o investimento estrangeiro direto (IDE). Mede-se esse tipo de investimento através do valor contábil (ou histórico) da parcela do capital das empresas funcionando dentro do país cujos donos são cidadãos de outros países. Em dezembro de 1995, 6.322 empresas com 10% ou mais de participação estrangeira responderam a um Censo feito pelo Banco Central, e os resultados foram extraordinários.

Ficamos sabendo que essas empresas tinham um patrimônio líquido de cerca de US$ 94 bilhões, dos quais os sócios estrangeiros detinham cerca de US$ 49 bilhões, ou seja, 52% do total. O Censo mostrou também que essas empresas tinham ativos de US$ 245 bilhões, faturamento de US$ 199 bilhões, podendo-se assim estimar que eram responsáveis por cerca de 10% do valor adicionado gerado, ou seja, do PIB do Brasil.

As exportações dessas empresas foram de US$ 22 bilhões em 1995, correspondendo a 47% do total. Seguramente, esse pedaço do Brasil é bem mais exportador (e importador) que o resto: cada US$ 1.000 de valor adicionado gerado dentro do país nessas 6.322 empresas gerava US$ 275 em exportações e US$ 242 em importações. Para o resto do Brasil, os números correspondentes seriam US$ 33 de exportações e US$ 42 de importações. Quanto às remessas de lucros note-se que, como percentagem do estoque (médio para o ano), as remessas oscilam em torno de 5%: foram recordes em 1998, com 8%, mas não chegaram a 3,5% em 1999.

Essas empresas geravam 1.447 mil empregos diretos, cerca de 9% do total. Produziam US$ 55 mil de valor adicionado por trabalhador empregado, enquanto que o resto do Brasil atingia US$ 49 mil. O "gap" de produtividade não era, portanto, tão significativo quanto a diferença na extensão dos laços com o exterior.

É bastante ponderável, portanto, a contribuição para o desenvolvimento econômico brasileiro proporcionada pelos US$ 49 bilhões de IDE feitos no Brasil até dezembro de 1995. E pelo menos o mesmo pode ser dito sobre o IDE feito nos quatro anos posteriores, que ultrapassou a espantosa marca de US$ 83 bilhões, ou seja, 170% do estoque acumulado até 1995. São números para enervar nacionalistas à direita e à esquerda. Como essa nova onda de IDE, maior que tudo que tivemos antes, vai afetar a economia brasileira no futuro ?

Basta imaginar o seguinte: se este IDE "novo" gerar ativos, vendas, empregos e comércio exterior, exatamente nas mesmas proporções do IDE "velho", presumivelmente depois de algum tempo (10 anos, por exemplo), teríamos US$ 336 bilhões adicionais em faturamento, o que seria correspondente a algo como US$ 134 bilhões em valor adicionado. Isto seria suficiente, caso o PIB do resto do Brasil cresça 4% durante esses 10 anos, para elevar para 5,5% a taxa de crescimento para o conjunto do país, e  ampliar a parcela do PIB gerada pelas empresas estrangeiras para algo ligeiramente superior a 20%, ou seja, o dobro da proporção de 1995. Levando adiante o exercício, US$ 441 bilhões em ativos (investimentos) seriam gerados, junto com cerca de 2,5 milhões de novos empregos, além de exportações e importações adicionais de US$ 37 bilhões e US$ 32,5 bilhões respectivamente.

É claro que esses números são meras extrapolações e que o "novo" IDE tem muitas diferenças relativamente ao "velho". É muito mais concentrado em serviços, por exemplo, e compreende muitas aquisições de empresas existentes, em contraste com o "velho", que tinha que ver (em proporção maior, segundo se diz) com empreendimentos inteiramente novos. Mas isso não é necessariamente mau, pelo contrário, quer dizer que o "novo" IDE veio para os setores mais atrasados da economia (empresas privatizadas, a maioria caindo aos pedaços, e bancos quebrados, por exemplo), o que é ótimo. E os brasileiros que venderam suas empresas vão reinvestir no país e criar novas empresas e empregos, por que acreditam mais no Brasil que os estrangeiros, ou será que não ?