Tendências
28.09.1999

Sobre o futuro do Mercosul
Gustavo H. B. Franco

O avanço do Mercosul, combinado aos movimentos que as duas economias (Brasil e Argentina) fizeram na direção da abertura comercial e financeira nos últimos anos criaram uma nova realidade cujas implicações ainda terão de ser melhor compreendidas. Em uma palavra: interdependência.

Quando Brasil e Argentina eram economias fechadas e não havia interesse na região por parte do mercado internacional de capitais, os eventos de um país não afetavam em nada o vizinho. Agora é diferente, e as políticas econômicas nacionais ainda não atinaram para isso.

Do lado comercial, os volumes cresceram bem mais que a média do comércio com outras regiões, e durante muito tempo. Não apenas cresceu a parcela do comércio intra-bloco sobre o total, como o comércio cresceu muito em áreas onde o produto é "comercializável" apenas na região, ou seja, produtos que dificilmente podem ser redirecionados para outras partes na eventualidade do mercado regional se fechar, como por exemplo, os automóveis argentinos exportados para cá. (o exemplo oposto é o do petróleo, o qual pode ser vendido em qualquer parte). Há também, e não vamos fazer alarde sobre isso, um bom tanto de "desvio de comércio", ou seja, os parceiros menores do bloco compraram coisas de nós que possivelmente comprariam melhor de outros países for a do bloco. Não obstante, há investimento direto cruzado de certo vulto, e diversos casos de grupos organizados regionalmente.

Do lado financeiro, basta ter em conta que Brasil e Argentina têm deficits em conta corrente, ambos estão se encontrando a todo momento em "road shows", e a correlação entre os "spreads" que cada um paga no mercado internacional deve ser próxima de um.

Mas quais são exatamente as implicações desse novo estado de coisas ?

Basta imaginar que se os argentinos tiverem de passar por alguma ruptura em suas políticas econômicas nos próximos meses: (i) será muito difícil argumentar que não foi causada pela nossa desvalorização; e (ii) será para nós uma outra crise que vai nos atrapalhar a vida durante um bom tempo, e cuja defesa poderá prejudicar a vizinhança novamente e gerar um processo cumulativo de fechamento recíproco.

A interdependência significa contaminação imediata, para o bem ou para o mal. Toda ação vai gerar uma reação. Quando é para o bem, os países parecem entrar num jogo de soma positiva, e avançam na integração. Quando é para o mal, o jogo é de soma negativa, e pode levar ao desastre. Pode ser, mas não necessariamente deve ocorrer.

Não custa lembrar que a região que mais teve problemas ao longo desse século com a interdependência, e dentro da qual tentou-se de tudo para levar vantagem em cima do vizinho, vai entrar no próximo século com uma moeda comum. A lição europeia é simples: interdependência requer coordenação, pois é preciso evitar o conflito, que é sempre um jogo de perdedores.

Uma outra lição europeia, e essa é por minha conta, é que não é necessariamente verdadeiro que a coordenação tenha de levar à integração monetária. Pelo contrário, minha percepção do processo europeu é que a melhor parte do processo já ficou para trás: a chamada "convergência", que foi um extraordinário e inédito exercício de coordenação, que teve efeitos tremendamente positivos para todos os país. Já os benefícios da moeda única em si, não se tem tanta clareza ainda quais são e quais serão. Possivelmente não existirão, mas o que se fez para chegar a ela foi tremendamente positivo. Nesse terreno, o processo é mais importante que o fim.

Tanto Brasil quanto Argentina desdenharam o tema da coordenação macroeconômica. Os brasileiros porque achavam que era um truque argentino para permitir que eles escapassem de seu "currency board", impressão que foi apenas reforçada pelo "factoide" criado em torno da moeda única pelos argentinos. E os argentinos porque pareciam mais preocupados em criar fatos que aumentassem a robustez do seu "currency board", quem sabe encorajando o Brasil a caminhar por aí.

Como resultado disso, o sub-grupo de coordenação macroeconômica no Mercosul não andou absolutamente nada. E as conversas em níveis mais altos também não.

Hoje elas talvez ocorrarm por conta de um terceiro, o FMI, que está em ambos os países fornecendo "âncoras".

Não basta apenas esperar que o bom senso da diplomacia, e das lideranças políticas, apague os incêndios comerciais que forem aperecendo, e os focos vão certamente se multiplicar. A crise do bloco só vai terminar mesmo com alguma inovação no terreno da coordenação macroeconômica que não tenha, por favor, nada que ver com moeda comum.