Jornal do Brasil

Mário Henrique Simonsen
Gustavo H. B. Franco

MHS é uma figura tão gigantesca que a aproximação se torna difícil. Por onde começar ? Seu lado mais visível é o do o indivíduo que escreve regularmente em jornais e revistas sobre a atualidade econômica, e se mostra, dentre tantos observadores, o mais lúcido e o de melhor prosa. Como os grandes da música, do futebol ou de qualquer arte, ele não precisa de muito espaço para nos provocar um tanto de fascinação. MHS tem tantas habilidades que o personagem chega a parecer irreal. É o mais extraordinário acadêmico que conheci: quando eu ainda usava calças curtas, e os economistas não iam para os EUA fazer cursos de doutorado, MHS já dominava todos os truques mais difíceis da teoria econômica. Ainda mais incrível é ter permanecido na fronteira da disciplina há mais de 30 anos em absoluto contraste com a esmagadora maioria dos economistas, novos e velhos, jamais se viu tolhido pelos progressos tecnológicos e instrumentais da economia. Pelo contrário, as inovações que ocasionam a rápida obsolecência dos PhDs que aqui desembarcam, parecem lhe fazer bem, renovando-o continuamente. Ele permanece falando a língua da fronteira com um sotaque muito próprio. Essa capacidade é sem igual. Não se trata de uma inteligência latinesca, pomposa e jurídica, mas de uma esperteza avassaladora, de quem conhece todos os truques, eu disse todos, como um prócer de 1922 a rebelar-se contra a mediocridade nacional, um Macunaima matemático, muito mais destruidor que o original, molecagem fina e condescendente, inatacável.. É uma inteligência fascinante que cresce um múltiplas dimensões. Ano passado escreveu um longo ensaio, produto de um curso, sobre epistemologia. Elaborou sobre aspectos matemáticos da teoria musical, discutiu a teoria da relatividade dentre outros incríveis trânsitos interdisciplinares que apenas ocorrem nas mentes realmente excepcionais.

Como se não bastasse, MHS é um ex-ministro que conhece as vicissitudes de Brasilia, as artes e manhas da política econômica, conhece todos os feitiços que existem. Mais importante, todavia, é que não se tornou um feiticeiro profissional a divertir-se a alastrar a cizânia. Não é um apóstolo do mal. Pelo contrário, MHS não é apenas um gênio, um mega-CDF, é um ser humano extraordinário dotado de incrível ironia, absolutamente letal, embora usada com generosidade. Quando mais jovem, os canhões foram usados com mais força. O Brasil era outro. O MHS do Brasil 2001/2002 pode ter sido indulgente com o regime militar, mas gerou estragos merecidos e duradouros aos nossos populistas, heterodoxos, esquisitos e alternativos em matéria econômica. Os danos podem ser medidos pela profundidade da vingança, perceptível no ridículo de ser ver, ainda hoje, jovens pós-graduandos da UNICAMP ou da UFRJ, observando-o com o desprezo dos idiotas vítimas de lavagem cerebral por causa da política salarial do PAEG ou coisas do gênero. A mediocridade se transmite de geração em geração ...

A despeito disso tudo MHS convive bem cononsco, cidadãos comuns, economistas simplórios, esforçados, que acreditam em teoria e que querem acertar. Ele observa, sem dar muita ênfase, as nossas hesitações, nosso aprendizado. Abusa de uma elegância condescendente, perdoa nossos erros, ignora nossas limitações. Ele fala com as estrelas e enxerga por trás das coisas, obviamente não se preocupa com besteira. É possível que passem gerações sem que se veja outro como ele.