Veja
18.04.1999

Quanta Fantasia !
Resenha de "Uma nova recessão ? O que deu errado. Como entender a crise da economia mundial" de Paul Krugman. Editora Campus
Gustavo H. B. Franco

Paul Krugman, um reconhecido ás da "linguagem das letras gregas", o idioma das equações e dos acadêmicos, fez sua primeira tentativa de comunicar-se com um público mais amplo em 1990, com "The Age of Diminishing Expectations" no prefácio do qual alegou que a "economia de aeroporto", ou seja, os livros escritos em linguagem popular, geralmente vendidos nesses recintos, eram mal feitos e tinham como tema mais comum a previsão de desastres, em geral uma nova Grande Depressão. Desde então, Krugman tomou gosto pela coisa, tanto é que está publicando, dez anos depois, quem diria, um livro prevendo uma espécie de nova Grande Depressão. Que aconteceu ?

Depois dessa primeira experiência, Krugman intensificou sua atividade "aeronáutica" em toda espécie de revista e jornal, sempre explorando um mesmo filão: o professor que mantém um pé na teoria e procura desmascarar o que chamava de "charlatanismo plausível", tão comum em economistas amadores e nos aeroportos. Desse esforço resultaram algumas boas coletâneas, como "Vendendo Prosperidade" (de 1994, e lançada no Brasil em 1997), "Internacionalismo Pop" (de 1996, e aqui em 1997) e "Globalização e globobagens", de1998, lançado aqui no mês passado.

É verdade que Krugman se tornou bem mais popular nos últimos anos em e a razão é curiosa: o seu Web Syte pessoal (www.mit.edu/people/krugman), se tornou parada obrigatória para qualquer um que acompanhe as finanças internacionais, pois ninguém quer perder a última do Krugman, contra ou favor do que quer que seja. Por ali, o interessado pode achar, de fato, tudo que ele escreve, incluindo as coisas que ele não publica em lugar nenhum, senão ali. Com efeito, com este syte assim popular, Krugman se tornou um editor de si próprio, e criou uma situação peculiar para os seus livros. Quando "Globalização e globobagens" foi publicado em 1998, tinha-se de lidar com o fato de a quase totalidade do livro ser de material já "publicado" na sua Web Page. A vendagem do livro permitiria uma boa discussão sobre o quanto a internet pode, ao fim das contas, afetar a indústria editorial.

Neste novo livro, lançado aqui simultaneamente à versão em inglês (cujo título, convém registrar, é bem mais fiel ao conteúdo: "The return of depression economics"), parece haver certa preocupação em ocultar o fato de que se trata de um re-empacotamento atualizado de materiais já disponíveis na Web Page, e que o livro faria muito mais sentido como coletânea. Percebe-se o esforço (que pode ser o dedo do editor) de definir uma costura para os capítulos de forma a evitar que o livro se torne uma coleção de cartões postais, na linguagem de aeroportos, sobre a desvalorização da Tailândia, passando por análises sobre a Crise do México, os "milagres" asiáticos, o problema do Japão, da Rússia e da Indonésia, as peripécias dos hedge funds, muita pancada no FMI, os eventos recentes no Brasil em versão altamente romanceada. E para descaracterizar a coletânea, a idéia do Retorno da Economia da Depressão era ótima, pois acoplava a todos esses temas polêmicos a velha fórmula da Depressão. O livro vai vender um bocado, mas será mesmo que algo desse tipo pode ocorrer ?

Bem, esta sempre foi a marca de Krugman: uma heresia plausível como qualquer outra, mas da qual o autor sutilmente se distancia. Seu papel é provocar o leitor na direção do impensável. Se vai ou não vai acontecer é menos importante. Afinal, é apenas um livro.

No mérito, é difícil não apontar exageros nas alusões á economia da Depressão. A idéia que o Japão de hoje encontra-se em situação semelhante aos EUA de 1929-33, imerso num problema muito peculiar que Keynes denominou de "armadilha da liquidez", é como dizer que um tamanduá bandeira foi encontrado na Groenlândia. Krugman está corretíssimo em se dizer "perplexo ao constatar como poucos economistas em todo o mundo percebem a importância do problema da armadilha japonesa, como questão prática e como desafio ás nossas doutrinas econômicas" (p.107). Mas daí a ressuscitar a armadilha da liquidez, especialmente quando se tem em conta que o Japão tem um déficit público imenso, quase parecido com o nosso, é um passo muito ousado. Como provocação, todavia, é um primor. Como foi, por exemplo, sua proposta de controles cambiais na Malásia, que lhe gerou grande desconforto quando, para sua surpresa, acabou adotada. Isso não fazia parte do script. No caso do Japão, a solução proposta é muito simples: a inflação, que faz, como bem sabemos, os juros reais ficarem negativos e, com isso, destróem essa inacreditável propensão a poupar dos japoneses, que o Ocidente inveja há tantas décadas.

Quando saímos dessas mazelas singulares do Japão, já de olhos arregalados, na direção de outros países, na Ásia e fora dela, vamos achar países que se engajaram, na visão dele, nas mesmas políticas ortodoxas erradas contra as quais se insurgiu Keynes na década de 1930. Krugman desdenha solenemente a idéia que algumas economias emergentes mais complicadas, como Rússia, Brasil, Indonésia ou Coréia do Sul, tenham problemas ditos "estruturais" e tenham de se preocupar com reformas: "ás vezes o carro enguiçado necessita apenas de um empurrão", diz ele (p.204). É mais fácil para um economista baseado no Hemisfério Norte imaginar que a periferia esqueceu Keynes do que perceber que tivemos, pelo menos aqui, uma espécie de overdose, ou que temos alguma doença tropical que ele não conhece. Os "gurus" não estão nesse métier para celebrar a diversidade, mas para dizer que a economia é uma caixa de instrumentos que eles conhecem melhor do que nós, e que as economias emergentes, com freqüência, não fazem a coisa certa por incompetência mesmo.

O livro tem um bom começo, coisa de profissional, ao juntar os elementos que farão a crise da Ásia parecer mais inesperada e interessante. As primeiras cenas são do Handover - a devolução de Hong Kong à China – que deve ser lida como um paradigma do triunfo do capitalismo na Ásia, vale dizer, foi a minúscula Hong Kong que, na verdade, conquistou a China-Mãe. Seguem-se manifestações de otimismo sobre o futuro que vão a ponto de exibir simpatias pelo entusiasmo tecnológico exuberante da revista Wired, o que, é bom recordar, é meio inconsistente com o que ele andou escrevendo sobre a Nova Economia, e sobre a própria revista. Mas vá lá. Ele quer nos mostrar que esse otimismo endêmico exibia fragilidades que ninguém queria ver. Quando somos apresentados aos Milagres Asiáticos, percebe-se que o iconoclasta já tem quase construído o templo que, em seguida, irá derrubar. Ele repete comedido a tese de um artigo seu de 1994, que os milagres da região tinham "mais transpiração que inspiração", tese também usada de forma, digamos, penetrante para o caso dos países socialistas: regimes baseados em suor mas não em produtividade acabam dando errado, como, aliás, o nosso modelo de crescimento baseado em inflação e protecionismo abundantemente veio a demonstrar. O fato é que este insight sobre a Ásia foi o que lhe valeu o título de "homem que previu a Crise da Ásia", e nessa profissão isso vale ouro.

O capítulo sobre a crise do México, e seus impactos na Argentina, é bem resumido pelo título, "o alerta ignorado", pois serve apenas para veicular uma idéia mais encontradiça em um republicano linha dura americano, ou no staff do Bundesbank: o "salvamento" do México gerou a falsa impressão de que o FMI e o Tesouro Americano sabiam lidar com crises e criou uma certa complacência no tocante a outros países. Não é tão claro como isso afetou a Ásia. A Rússia seria uma candidata melhor a deixar-se levar pela indisciplina, na esperança que seria socorrida em função de seu arsenal nuclear. Na Ásia o problema é descrito de um jeito um tanto diferente: tipicamente, grandes influxos de capital patrocinados por investidores envolvidos em relacionamentos discutíveis com parentes das autoridades locais, provocam "bolhas" nos preços de determinados ativos, cujo inevitável estouro afeta os bancos do país e provoca o colapso da moeda. Os investidores pareciam acreditar que, em caso de problemas, o governo local viria em seu socorro, graças às propinas e associações escusas com as autoridades. Mas o socorro prometido não veio e uma grande confusão se instalou. O leitor não deve estranhar o tom conspiratório, mas em Wall Street, e em muitas salas em Washington, é só isso que se fala. Nunca se tinha ouvido falar de corrupção nesses termos, como problema sistêmico, o que popularizou o termo "Crony Capitalism" (cuja tradução para "capitalismo clientelista" é muito branda, está se falando de algo muito mais feio, que se aplica também à Rússia, algo como "capitalismo de comparsas" ou "de quadrilhas"). A resposta asiática vem, no mesmo tom, do Primeiro Ministro Mahathir, da Malásia, que em pleno Encontro Anual do FMI em Hong Kong, em 1997, acusou George Soros e outros do gênero de tramar para derrubar moedas e governos da região, seguindo instruções do Departamento de Estado.

Bem, se essas são as teorias sobre a crise da Ásia, a impressão que se tem é de que ainda não temos um relato estabelecido e amadurecido da confusão toda, e que estamos ainda na fase das recriminações, além da qual o livro de Krugman não avança muito, exceto em fazer muita carga contra o FMI e o Tesouro Americano.

O Brasil aparece no Capítulo 6, quando a tese central do livro já está alinhavada – a volta da Economia da Depressão - e a nós cabe apenas confirmá-la. Para isso é necessário argumentar que o Brasil está cometendo alguma insensatez antikeynesiana. O argumento é mais ou menos assim: a teoria de que o Brasil tem um problema fiscal sério (e "estrutural"!) está inteiramente errada, mas como o "mercado" acredita nela, e é preciso conquistar a confiança desta entidade, segue-se que os pobres brasileiros acabam vendo-se forçados a fazer a coisa errada, no que, ademais, são estimulados pelo FMI e pelo Tesouro Americano. Mais adiante, no capítulo final (p.190) ele leva essa curiosa tese às penúltimas conseqüências ao revelar-se compreensivo com os políticos brasileiros que relutam em aprovar medidas de ajuste fiscal que, na visão dele, não são necessárias nem desejáveis e, por último, fica a dois centímetros de apoiar a iniciativa do Governador Itamar Franco. Sobra pancada para o FMI, que estaria nos envenenando com essa teoria equivocada sobre o déficit público, e que chega ao ápice com a revelação (p.191) de que a decisão de flutuar o real, no dia 15 de janeiro, teria sido extremamente bem sucedida, pois a moeda teria atingido "uma estabilização espontânea" naquela Sexta Feira, mas como o FMI e o Tesouro Americano, reunidos com as autoridades brasileiras no fim de semana, insistiram para que os juros fossem elevados, o resultado foi "o desânimo" e a desvalorização do Real até o patamar de R$ 2,10 nos dias que se seguiram. Quanta fantasia !

E o pior é que é são tolices plausíveis para públicos desinformados sobre o Brasil, e este livro vai vender um bocado, em toda parte do mundo. É uma pena, e não há nada que possamos fazer.