Originalmente publicado na Folha de São Paulo em 4 de outubro de 1996


F
renólogos
Gustavo H. B. Franco

É curioso que, com freqüência, a defesa da inflação como um "subproduto admissível", ou como "mal necessário" inerente a um processo de crescimento venha do exterior, de brasilianistas ou consultores internacionais. Neste caso, não me parece tratar-se de reflexão profunda e original sobre o Brasil, mas de transplante não muito cuidadoso de uma outra discussão, própria dos países do G-7. Para estes países é comum que se discuta o excesso de zelo de bancos centrais para com inflações insignificantes, e que podem até mesmo não existir em função de imperfeições dos índices de preço. Mas por justificada que pareça essa má vontade para com o convencionalismo monetarista no Norte, nosso situação é bem outra, e bem descrita pela observação do professor Dionísio Dias Carneiro de que, tendo em vista nossas experiência anterior de overdoses de inflação e indexação, "aceitar um pouco de inflação é como oferecer um drinque a um ex-alcoólatra".

A figura do latino-americanista mereceu uma extraordinária alegoria da parte de Mário Vargas Llosa, no seu "A Guerra do Fim do Mundo". Um de seus personagens - Galileu Gall - era anarquista e escocês, especialista em frenologia, ciência hoje esquecida, que estuda a associação entre a anatomia do crânio e a personalidade. De acordo com Gall, se o intelecto e os instintos, e mesmo os sentimentos, podiam ser medidos e tocados no córtex cerebral, seria verdade, por conseguinte, que o espírito era uma dimensão do corpo. A frenologia era, portanto, a chave para a vitória do materialismo sobe a religião, um empreendimento que ocupava muita gente naquela época. Esse cidadão desembarcou no interior da Bahia na última década do século passado, obcecado com a idéia de apalpar o crânio de Antônio Conselheiro a fim de estudar, pela primeira vez, a conformação craniana de uma autêntica liderança revolucionária, que segundo se noticiava na Europa, estava conduzindo o lumpen do interior baiano à ditadura do proletariado antes mesmo de constituída a classe operária mediante o estabelecimento da manufatura. A despeito de seus ideais libertários, o nosso frenólogo termina roubando a mulher do sujeito que ele próprio contratou para levá-lo a Canudos e assassinado antes de conhecer o Conselheiro.

Vargas Llosa bem sabe o quanto este nosso continente é assolado por cientistas estrangeiros versados em técnicas exóticas e que nos procuram a fim de comprovar as hipóteses, as mais doidas, que apoiam suas idiossincrasias, suas cátedras ou suas posições em boards de empresas multinacionais.

Ele sabe, como todos nós, o quanto este nosso continente é singular, exótico mesmo, e que os gringos raramente conseguem dominar a língua local. Pois bem, o nosso frenólogo escocês é uma esplêndida metáfora para o brasilianista: um vetusto e simpático professor estrangeiro que, em boa parte dos casos, aqui virá apenas para recolher memorabilia para o museu da universidade, bem como coletar insights dos locais a fim de lhe permitir uns artigos em journals e umas conversas eruditas do faculty club.

O zelo profissional os impedirá de interferir nos negócios locais que respeitam bastante e cuja lógica entendem apenas superficialmente. É assim que se faz, por exemplo, quando se vai a Galápagos, onde os forasteiros não podem sequer trocar as pedras de lugar, imagine-se opinar sobre política econômica.

O professor pode, com certeza, também ganhar dinheiro com o seu conhecimento específico, real ou imaginado, de outras culturas. É natural que prospere, em função disso, a função de conselheiro econômico estrangeiro, uma profissão que está sem dúvida entre as mais antigas.

O apogeu dessa estirpe foi a década de 1920, quando os chamados money doctors estavam em todas as partes do mundo escrevendo alentados relatórios contendo a receita financeira para a felicidade por meio de uma adesão bem comportada ao padrão ouro. O célebre professor Edwin Walter Kemmerer, da Universidade de Princeton, fez mais de 30 missões, das Filipinas ao Peru, da Guatemala à África do Sul, sempre pregando a mesma ladainha. Em todos esses casos a concordância do governo local com as recomendações do relatório de uma "missão Kemmerer" era uma condição sine qua non para o acesso a empréstimos externos. Wall Street achava que o professor entendia essas comunidades primitivas e se surpreendeu quando todas elas, mesmo as que seguiram a receita até as últimas conseqüências, entraram em default depois de 1929.

A função civilizatória dos money doctors era de tal forma considerada que, progressivamente, passou ao comando de organizações internacionais: a Liga das Nações, as instituições de Bretton Woods, a Aliança para o Progresso etc. Os money doctors, agora pessoas jurídicas de direito público, tornaram-se insípidos burocratas internacionais. Estatizou-se, portanto, o aconselhamento econômico externo.

Mas, mesmo assim, a frenologia não mudou muita coisa: basta um desavisado tentar reconhecer-se no que se escreve, por exemplo, no IMF Staff Papers sobre economias emergentes. Nossa própria experiência recente com o FMI é muito clara: depois de tantas cartas de intenção não-cumpridas e de se recusarem a aceitar a única que cumprimos (a do Real), não há muito a dizer sobre a qualidade do seu aconselhamento.

Os tempos são outros, muitos dirão, é preciso privatizar essa atividade. Com isso abrem-se as portas para money doctors de direito privado. Certamente muitos voluntários surgirão para suceder o professor Kemmerer. Afinal são US$ 10 mil por palestra, ou mais, dependendo da inserção do professor nos negócios locais. Quanto mais conhecidos nos grotões mundo afora, mais caros os seus serviços.

Pois bem. Diferente de alguns dos nossos vizinhos, o Brasil desfruta de uma reputação de país pragmático. Isso é admitido pelos próprios frenólogos com um evidente tom de lamentação: o Brasil nunca se deixou encantar com modismos, não é dado a extremismos doutrinários e, principalmente, nunca levou a sério consultores internacionais. Esperamos que continue assim.