OESP e JB
14.01.2001

 

Mais sobre comércio exterior em 2000
Gustavo H. B. Franco

 

 

 

Na semana passada, e na anterior, destacamos o bom desempenho do “quantum” de exportações, crescimento da ordem de 12%, mas não se falou sobre o crescimento em termos dos valores exportados: cerca de 15%, um desempenho excelente a despeito dos preços meio deprimidos.

O saudoso professor Mario Henrique Simonsen inventou, certa vez, uma espécie de “regra de ouro” para a sustentabilidade de nosso balanço de pagamentos, cujo fundamento era a razão entre o serviço da dívida e as exportações. A evolução ao longo do tempo deste indicador era dada pela simples comparação entre a taxa de juros implícita de nossa dívida externa e a taxa de crescimento das exportações.

Em 1999, a taxa de juros média incidindo sobre a dívida externa brasileira foi de 7,2%, e como o crescimento das exportações em valor foi negativo – cerca de 6,1% - a parcela das exportações consumida com os pagamentos de juros subiu de 31,0% em 1998 para 35,5% em 1999. A “sustentabilidade” piorou em 1999, com maxi e tudo.

Em 2000, a taxa de juros sobre a dívida externa deverá ser muito parecida, 7,7% até setembro de acordo com o BC, e o crescimento das exportações em valor, como já mencionado, será superior a 15%. Com isso, a parcela das exportações consumida com os pagamentos de juros cairá dos 35,5% de 1999 para algo da ordem de 32% em 2000.

É claro que esse indicador de sustentabilidade se altera sobremodo se incluímos no numerador não apenas os juros mas também as amortizações. Usando este critério, a situação também piora de 1998 para 1999, quando o percentual sobe de 91,0% para 129,3%, mas deve cair para algo como 85% em 2000. Durante esses anos de crise,  as amortizações pagas sobem muito, de modo atípico, triplicando em valor de 1996 para 1999 quando chegam próximas de US$ 45 bilhões. Em 2000 este número deve cair para menos de US$ 35 bilhões e nos próximos anos deve cair mais ainda.

Do lado das importações, a queda em 1999 em valor foi de 15%, um número grande e que gerou grande e precipitada excitação na velha guarda da “substituição de importações”. Em 2000, o crescimento das importações em valor pode chegar a uns 14%, elevando os valores para a faixa de US$ 56 bilhões, apenas ligeiramente inferior aos níveis de 1998. Em termos de “quantum”, segundo a Funcex, as importações em 2000 deverão ser cerca de 3% maiores do que foram em 1998, e uns 12% maiores do que foram em 1999.

Esse comportamento frustrou aqueles que achavam que estávamos alegremente entrando em um “novo ciclo” de substituição de importações. Nada pode ser mais equivocado, e antigo, do que achar que há uma “agenda de substituição de importações” à moda antiga, ou seja, a ser “dirigida” pelo BNDES ou pela “política industrial” do governo. Num mundo globalizado, onde começamos a participar de forma adulta não faz muito mais que uma década, dois movimentos simultâneos ocorrem com as importações: de um lado, a chamada taxa de penetração das importações (importações como proporção da oferta total de produtos sujeitos a comércio internacional, os populares “tradables”) avança para níveis internacionais pois os padrões de consumo e de produção se tornam muito semelhantes para diferentes países. Um cuidadoso estudo do economista Mauricio Moreira do BNDES mostra que as nossas taxas de penetração de importações na indústria cresceram de cerca de 4% para cerca de 20% durante os anos 1990. É interessante não perder de vista que o “padrão internacional” é de taxas da ordem de 30%.

Um dos equívocos mais comuns nas discussões sobre grau de abertura é o de se supor que países de “dimensões continentais” são “naturalmente” fechados, posto que “naturalmente” auto-suficientes uma vez que são grandes. Ledo engano provocado pela medição do grau de abertura usando importações no numerador e o PIB no denominador. Com este indicador, o setor de serviços, que não está sujeito a comércio internacional (é de “non-trabables” como se diz na gíria dos entendidos), fica engordando artificialmente o denominador e levando a ilusões sobre o grau de abertura.

O fato é que as chamadas “melhores práticas” industriais em toda parte compreendem o uso dos melhores insumos do mundo, e normalmente eles vêm de todo lugar. Assim sendo, em qualquer lugar onde exista uma indústria madura e competitiva, as importações vão tender a alcançar cerca de um terço do valor adicionado local e não há nenhum desdouro nisso. O pessoal da velha guarda, evidentemente, não concorda com isso, e acha que devemos nos esforçar para produzir com “alto conteúdo nacional”, ou altos “índices de nacionalização”. Sinal dos tempos. Se a Embraer, por exemplo, resolvesse produzir aviões com “alto grau de nacionalização” não os venderia nem para seus próprios funcionários.

É interessante observar, todavia, que a despeito do crescimento da taxa de penetração de importações que experimentamos e ainda vamos experimentar, sempre haverá alguma substituição de importações. O país importa, por exemplo, uma máquina, depois, por gravidade, passa a produzi-las aqui, de modo a consolidar sua presença no mercado, mas com componentes importados, e depois, face ao tamanho do mercado, produz aqui alguns desses componentes, que por sua vez utilizam outros componentes importados, ou seja, sempre que alguma importação está sendo “substituída”, uma nova está sendo criada. A busca da “auto-suficiência” funciona mais ou menos como um processo de enxugamento de gelo.

O pessoal da velha guarda aplaude a substituição de importações, toda vez que a enxerga, achando que estamos trilhando o caminho da “auto-suficiência” e que isso reduz a “vulnerabilidade externa”. Nada mais enganoso. Como a velha história do sujeito que tinha um jegue, e por economia, resolveu que o animal ia se alimentar apenas de seus próprios fluidos, tornando-se, portanto, um jegue auto-suficiente. O jegue morreu de fome, é claro.