OESP e JB
07.01.2001

 

Ainda sobre as exportações em 2000
Gustavo H. B. Franco

 

 

 

 

Na semana passada, neste espaço, destacamos o bom desempenho das exportações em 2000, em termos de “quantum” (índices para quantidades): crescimento na faixa (provável) de 12% para o total e de 19 % para manufaturados. O crescimento médio para o período 1985-1993, quando a política cambial era de mini desvalorizações que seguiam a inflação e mais um tanto, foi de 5,3%, sendo que de 5,5% para manufaturados, ou seja, muito inferior ao que estamos observando agora.

Todavia, parece prevalecer um sentimento de frustração diante deste desempenho, em boa medida por que a balança comercial não vai ser positiva como se esperava. É sempre difícil para qualquer governo ver frustrada uma previsão plausível, como era a de superávit comercial para este ano. Pouca coisa agrada mais à imprensa, e à oposição, que perguntar a uma autoridade sobre as razões do “erro” nas previsões oficiais. Por isso as autoridades, no Brasil, desenvolveram verdadeira ojeriza a previsões, embora nem sempre consigam evitá-las, especialmente na presença de um acordo com o FMI cheio de metas numéricas.

Mas por que a balança comercial não foi tão brilhante quanto se esperava ? Aliás, por que tamanha importância é dada à tal da balança comercial, especialmente agora que vivemos sob taxas de câmbio flutuantes?

Há muito o que dizer ainda sobre as exportações, antes de discutir as importações e as razões pelas quais o superávit comercial se tornou uma obsessão, quando não deveria. Mas vamos por partes, primeiro tratando de alguns outros temas referentes a exportações.

Faz exatamente um ano que apontei, neste mesmo espaço, um fenômeno curioso e pouco estudado: uma relação negativa entre os preços em dólares das exportações e a maxi  desvalorização. Nosso histórico de mini desvalorizações talvez servisse para ocultar este fenômeno, que a literatura acadêmica estuda e que apenas observamos com mais clareza quando existem mudanças drásticas na taxa de câmbio.

Quando a taxa de câmbio se valorizou significativamente entre junho e outubro de 1994 os preços em dólares das exportações subiram cerca de 12% no mesmo período, como se estivessem a “compensar” o exportador pela perda de rentabilidade. A partir de janeiro de 1999, com a maxi, o mesmo fenômeno teve lugar, mas no sentido inverso. Foram muitos os relatos de exportadores que contavam que seus clientes no exterior, ao tomarem conhecimento que o Real já havia desvalorizado mais de 50%, ligavam para pedir descontos, o que era difícil de negar em vista da momentânea multiplicação da rentabilidade da exportação.

No âmbito de exportações intra-firma (entre empresas do mesmo grupo) este processo adquire tonalidades fiscais um tanto mais picantes: os lucros “extraordinários” da maxi são “transferidos” para a contra parte no exterior de modo a evitar maiores pagamentos de impostos no país.

No âmbito das exportações de produtos básicos e semi-manufaturados, onde há pouca diferenciação de produto e mercados competitivos, o problema é pior ainda, ao contrário de algumas análises ingênuas do fenômeno. O que ocorre com o preço internacional de uma “commodity” quando se toma conhecimento que um produtor relevante teve um ganho de rentabilidade de 50% ou mais em função de uma maxi ? O que se espera que ocorra com a produção neste país ?

O Brasil pode ser pequeno em termos do comércio internacional, mas é produtor relevante nas “commodities” mais importantes para as nossas exportações. Por isso mesmo, para este universo de produtos, assim como para produtos manufaturados com diferenciação, ou vendidos em canais “intra-firma”, a perda nos preços em função da desvalorização mostrou-se bastante séria e, o que é pior, duradoura. Afinal, o “quantum” exportado cresceu, e como o mercado externo não cresceu nem de perto no mesmo ritmo, a lei da oferta e da procura pode ter ajudado a manter baixos os preços.

De toda maneira, o fato ainda está a procura de melhores explicações. Alguns analistas, e algumas visões emanadas do próprio governo, parecem supor que tudo não passa de uma enorme e perversa coincidência. Um relatório recente do Ministério da Fazenda chega a estimar qual seria o superávit comercial em 2000 se os preços das exportações e importações fossem os de 1998. É um exercício contrafactual típico dos praticantes da “nova história econômica”, como Robert Fogel e Donald, agora Deirdre McCloskey. Os termos de troca de 1998 são “variáveis endógenas” do mundo que existia em 1998, e que, como o leitor já deve ter notado, não existe mais.

Por fim, ainda sobre condições adversas para as exportações, é interessante registrar que, tal como ocorreu em 1999, o valor das exportações embarcadas tem sido maior que os pagamentos recebidos, normalmente adiantados aos exportadores. As exportações no conceito “físico” estão maiores que no conceito de “caixa”. Isso significa que o exportador está usando menos o famoso ACC (empréstimos a custos internacionais a título de Adiantamento por Contratos de Câmbio por exportações a embarcar). Isso pode ter duas explicações: há menos interesse da parte do exportador ou há menos oferta de linhas. A segunda me parece indiscutível; a primeira é mais controversa. O ACC sempre foi importante para o exportador para compor seu capital de giro e também sua rentabilidade, pois era dinheiro a custos internacionais. O ACC pode ficar menos atrativo quando há mais risco cambial, mas a alternativa, como fonte de capital de giro, é o “hot money”, do qual todo empresário de bom senso faz bem de ficar afastado. De um jeito ou de outro, o fato do “físico” ter estado maior que o “caixa” indica que o exportador médio (não o de elite) andou meio seco de capital de giro em 2000.