OESP e JB
01.10.2000

 

Praga sitiada
Gustavo H. B. Franco

 

 

Tal como ocorreu em Seatle, durante a última reunião da Organização Mundial do Comércio, manifestantes de rua das mais diversas origens dominaram a mídia, e com isso dando a impressão de terem desarrumado a reunião do FMI e Banco Mundial em Praga e desnudado a fragilidade destas instituições. Mais uma vez, segundo observadores simpáticos aos manifestantes, a “voz das ruas” estaria firmando posição contra a globalização, a pobreza, a injustiça social e a destruição do meio ambiente.

Não se sabe bem o que vem a seguir, mas tem muita gente dizendo que o “Consenso de Washington” ruiu e que a economia global nunca mais será a mesma.

Será mesmo ?

É claro que há muito o que se questionar se as ONGs, Punks, esotéricos e esquisitos que foram brigar com a polícia em Praga podem ser tomados como amostra representativa da “opinião pública” nos temas de interesse dos manifestantes e também sobre os temas do encontro do FMI. Tomar conta das estreitas vielas de Praga é uma coisa; substância política é outra completamente diferente.

Todavia, um dos paradoxos da globalização, do mundo da Internet e da informação total, é que manifestações espetaculares - como atos terroristas, suicídios coletivos, ou embrulhar prédios com papel colorido - têm enorme impacto de mídia a despeito de as causas defendidas pelos autores dessas ações não encontrarem necessariamente muita ressonância. A globalização cria uma espécie de sociedade do espetáculo, onde a “performance” vale mais que a substância e uma imagem, ou uma representação, vale mais que mil ações.

Os manifestantes em Praga teriam mantido confinados os participantes da reunião e provocado a antecipação do fim do encontro. São imagens fortíssimas, reforçadas pelas rusgas com a policia sobre a névoa do gás lacrimogêneo e pela visão dos poderosos comandantes das finanças internacionais se movimentando em meio a esquemas de segurança dignos de criminosos perseguidos por uma turba furiosa. Os manifestantes tomaram Praga, como em 1968 fizeram os tanques redentores da Pátria do Socialismo. Agora em 2000, pudemos ver o que sobrou desses tanques, no mesmo cenário.

De fato, em vista da dinâmica habitual dessas reuniões, e da decisão de realizar o encontro em Praga, é fácil ver que como as manifestações poderiam arruinar o evento.  As reuniões do FMI, do Banco Mundial e de suas empresas coligadas, acontecem duas vezes a cada ano. A reunião de outono é a maior e já de algum tempo tem como característica principal o acessório e não o fundamental. As reuniões do chamado “setor oficial” são intermináveis, inconclusivas e raramente têm algum “resultado” a ser exibido. Em volta desses encontros, todavia, há um verdadeiro festival de encontros de banqueiros, investidores, economistas, jornalistas, empresas e interessados em assuntos de finanças internacionais. Mesmo as autoridades ocupam a maior e melhor parte de seu tempo para contatos com o setor privado. São encontros de negócios, onde a alta finança internacional se reúne para trabalhar, como numa grande feira.

No cenário habitual dessas reuniões – Washington – onde a polícia sabe tratar com manifestações de todo tipo, o resultado prático de bagunças de rua é dificultar o trânsito, e portanto, prejudicar os negócios.  As pessoas não conseguem se movimentar, as conferências perdem platéias, os coquetéis não dão ibope, as empresas, bancos e investidores não conseguem se encontrar. São menos negócios, e portanto menos empregos, como certa vez ouvi dizer em Washington.

Em Praga, esses constrangimentos ficaram ainda mais dramáticos, o que obviamente resultou em esvaziar o encontro, especificamente no que tange ao setor privado. Com os negócios em segundo plano, ficam em evidência as autoridades, e mais especificamente os comandantes da FMI e do Banco Mundial. O encontro se politiza e se estrutura em volta de um diálogo improvável entre as burocracias dessas duas instituições e de ONGs voltadas para todo tipo de causa e mobilizadas para atrair a atenção da mídia. Deste diálogo resultam questões que o FMI e Banco Mundial não estão propriamente preparados para responder pois, em boa parte dos casos, trata-se questões externas às missões dessas instituições. O FMI, por exemplo, não tem que tratar de pobreza, meio ambiente e condição feminina. Sua missão é outra, bastante nobre, a de zelar, por exemplo, para que os países adotem a responsabilidade fiscal com cláusula pétrea de sua gestão macroeconômica. O FMI é um organismo cujos sócios são os bancos centrais cuja responsabilidade social direta é com a saúde da moeda.

 Já o Banco Mundial, que certamente pode fazer muita coisa no plano social, a nível de projetos específicos, não pode virar uma central de distribuição indiscriminada de dinheiro para governadores e prefeitos que não têm condições de pagar os empréstimos que recebem. Ao ver-se pressionado a terminar com a pobreza emprestando a rodo, acabaria solapando o trabalho da sua instituição irmã, induzindo governantes a se endividarem além da conta além de executarem os projetos que o Banco Mundial acha bons em vez dos que interessam ao país e às comunidades relevantes.

Portanto, diante de questões estranhas a seus mandatos, o pior que pode acontecer ao FMI e ao Banco Mundial é suas lideranças sucumbirem ao “politicamente correto” e passarem a emular uma retórica tipicamente terceiro-mundista, mais ao gosto de entidades como a UNCTAD, por exemplo. Isto sem falar no desastre que seria atuar na linha da demagogia politicamente correta com que parecem flertar.

Ademais, a submissão ao “politicamente correto” por parte do FMI e do Banco Mundial, além de revelar falta de clareza quanto às suas respectivas missões, é uma postura politicamente tacanha. Faz parecer que o distinto público assiste a demonstrações de sentimento de culpa: a pobreza, a desigualdade e a injustiça são assumidas indevidamente pelas instituições de Bretton Woods, para o mais absoluto deleite da esquerda terceiro-mundista em toda parte.

Aqui no Brasil em especial, onde a resistência a tudo o que é progresso e mudança é das nossas mazelas mais antigas, a leitura é a de que não há mais “Consenso de Washington”, que as culpas foram admitidas, e que a pobreza e a desigualdade no Brasil foram geradas pelas reformas neoliberais dos últimos cinco anos, e não pelas políticas populistas e inflacionistas praticadas nas últimas cinco décadas por muitos dos que hoje estão, ao menos em espírito, nas passeatas de Praga.