OESP e JB
16.04.2000

 Desenvolvimentismo festivo
Gustavo H. B. Franco

O reformismo brasileiro, durante muitos anos, foi mais etílico do que efetivo. A expressão "esquerda festiva" parece encontrar sua origem em senhoras e senhores de grande imaginação, pouca tolerância para a política do mundo real e excelente conversa. O tempo e a Queda do Muro, todavia, terminaram produzindo um abrasivo divórcio entre a
esquerda e o reformismo.

Basta lembrar das inovações introduzidas, por exemplo, pelo governo Tony Blair: o uso "social" das receitas de loterias e a independência do banco central. Triste fim para as utopias de esquerda.

Mas as festas continuam acontecendo.

E quem pontifica, especialmente em Brasília, é um tipo especial de reformista, que se auto-atribui a qualidade de "desenvolvimentista" e com muita freqüência chamam o presidente de "Fernando". A despeito da variedade, essas pessoas têm em comum, de um lado, uma profunda e ressentida ciumeira da chamada "área econômica", e de outro, um desprezo estomacal pelo Congresso Nacional. Sua ladainha, na verdade, é contra os limites à ação do presidente: concessões feitas "à direita" em nome da governabilidade, ou com o propósito de fazer passar as reformas, e amarras impostas pela área econômica às ações do Estado. Trata-se, ao fim das contas, de queixumes contra a democracia e a contra a responsabilidade fiscal que, felizmente, o presidente sempre teve a sabedoria de relevar.

Com raras e conhecidas exceções, esses conselheiros do presidente são discretos e sinuosos. Durante muitos anos operaram na clandestinidade, alguns com enorme dose de malícia, fazendo guerrilha contra as alianças feitas pelo governo (desancando, neste terreno em particular, as verbas e cargos entregues a aliados, como se governos de coalizão não devessem fazer isso) e também contra o Banco Central e o Ministério da Fazenda, os centros emanadores da racionalidade econômica e disciplina fiscal.

A área econômica nunca teve uma vida fácil com alguns dos amigos do presidente. A estabilização e a abertura, alavancados pela âncora cambial, trouxeram disciplina fiscal para o governo e disciplina de mercado para o setor privado, e foi briga desde o começo.

O maior problema com os homens que chamam o presidente de "Fernando" era simples: as coisas deram certo, e deram tão certo que o ministro Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito presidente no primeiro turno seguindo conselhos opostos aos de
seus amigos.

Por outro lado, um segmento expressivo (ao menos no tocante a sobrenomes e reputações) das "classes produtivas" sempre se alinhou com os amigos do presidente não apenas em seu desapreço para com a moeda forte, como também em seu desprezo pelas reformas e pelo Congresso. Assalariados e consumidores, em oposição, não apenas apreciam a moeda forte, como também a apoiaram sempre que tiveram a oportunidade de votar sobre o assunto.

Enquanto isso, em função da determinação do presidente, a coalizão governista conseguia reformar a Constituição e iniciar a mudança do modelo econômico. Abertura, estabilização, privatização, todo esse complexo de novos "fundamentos" para o crescimento foi sendo consolidado e não revertido. Os homens que chamam o presidente de "Fernando" nunca estiveram satisfeitos com isso. O Brasil se transformava e em direções que lhes pareciam estranhas. Esses homens se identificavam com um "Fernando" que não existia mais. Sentiam-se como políticos da oposição e surpreendiam-se com o pensamento do presidente. Com efeito, o presidente nunca teve problema com as suas próprias velhas idéias, que sempre soube reciclar para novos tempos e realidades.

Com os seus amigos, todavia, algo diferente se passou. Muitos não saíram do lugar em matéria de idéias econômicas, mas continuam a mover-se nesse terreno com grande desenvoltura, assim criando problemas para o presidente.

É mais fácil livrar-se de uma idéia que ficou velha que de um amigo cabeça-de-vento, que vive no passado, e que não economiza maus conselhos ao presidente diretamente, e também, e com mais empenho, em festas em Brasília.

As mudanças nos últimos anos geraram muitas tensões. O Brasil passou a ser uma economia de mercado globalizada e passou a viver todos os vendavais da Nova Economia. A mudança gerou tensões proporcionais à sua profundidade, mas mesmo durante as crises da Ásia e da Rússia a aprovação popular do governo permaneceu muito elevada. É grande o poder de maiorias mudas, como consumidores e contribuintes. Numa democracia de massa são mais importantes os conceitos que os grupos de pressão. O presidente governa pela TV e não para os que estão em sua sala de espera.

Mas os homens que chamam o presidente de "Fernando" aplaudiram discretamente as crises da Ásia e da Rússia como se tivessem sido previsão deles e culpa nossa. Esses homens e mulheres murmuravam "desvalorização" pelas festas com a mesma carga emocional libertadora usada antigamente para se falar de "revolução".

O problema é que a fórmula mágica da felicidade, o atalho para a prosperidade, não funcionou como planejado. E felizmente para nós, brasileiros, o governo voltou para as linhas da política econômica originais antes mesmo que os projetos "alternativos" ou
"desenvolvimentistas" tivessem sequer sido abertamente assumidos pelo governo. Ao final das contas, o desenvolvimentismo mais tacanho, que despreza o Congresso, as reformas e a responsabilidade fiscal, virou assunto de gente ressentida que bebe demais nas festas de Brasília.