OESP e JB
27.02.2000


Fragmentos de um discurso nacionalista

Gustavo H. B. Franco

A linguagem é um elemento essencial para os embates políticos. Tanto que no mundo orwelliano de 1984 foi criado um idioma especial onde certos significados (ou conteúdos, para usar o termo da moda) não encontravam nenhum modo de expressão. O uso da linguagem para o mal também se dá mediante a utilização de clichês e palavras de ordem de significado preestabelecido (e geralmente errado), de forma a apelar às massas incautas e abastecer os usuários de palanques e tribunas. Vamos a um exemplo de retórica vazia muito encontradiça:

"Precisamos de um projeto nacional que reverta a africanização do país, reduza nossa dependência, apóie as empresas nacionais nos setores de alto valor agregado e nos restitua o superávit comercial e a soberania."

Quantas vezes e em quantos formatos mais burilados o leitor já se deparou com esse discurso? Quantas pessoas de bom senso já não escorregaram na direção dessas teses apenas por que lhes pareceram intuitivas?
 
Pois bem, para o benefício do leitor não versado nas armadilhas retóricas dos economistas, vamos produzir um pequeno dicionário para ajudar a interpretar o trecho acima.
 
Projeto Nacional - designação dada a posteriori, geralmente por historiadores, a episódios de mudança econômica bem sucedida onde se arrolam elementos de um passado bem remoto que apontavam na direção que efetivamente as coisas tomaram e se procura construir uma teoria segundo a qual não haveria outra forma pela qual as coisas poderiam ocorrer. Supõe-se, também, que o processo foi compreendido por lideranças visionárias cuja influência para o curso dos eventos teria sido crucial. Deve ser claro, todavia, que isso é basicamente um romance. Os economistas são excelentes médicos legistas, e sabem explicar o passado tão bem que fornecem a ilusão que entendem sua lógica e, portanto, podem não apenas prever como intervir positivamente no nosso futuro. Como não podem, o enunciado de um Projeto Nacional não passa de programa político. Desconfie sempre do messianismo econômico, e de determinismos históricos, leis de movimento e projetos salvadores.
 
Africanização - Não quer dizer rigorosamente coisa alguma, mas o discurso nacional-oposicionista precisa apavorar, chocar, falar em "horror econômico", "sucatamento", e "destruição", pois funciona muito bem nos palanques e nos programas de TV no gênero mundo cão. A oposição precisa de atenção e, faltando-lhe conteúdo, resta a apelação.
 
Dependência - Designação depreciativa usada para relações entre pessoas, coisas e países na qual se presume existir alguma assimetria. A relação entre o homem e a televisão, entre a mulher e a moda, entre o Brasil e os EUA podem sempre receber esse nome. A dependência tanto pode ser viciosa como virtuosa, como pode não querer dizer coisa alguma. Dizer que hoje o Brasil tem "dependência zero" de capitais de curto prazo é tão tolo quanto dizer que o Brasil tinha uma enorme dependência de "capitais de motel". Esses tais capitais continuam existindo, entrando e saindo cada vez mais livres e audazes, e fazem parte da nossa realidade, queiramos ou não. O termo é usado de forma ampla para criminalizar as relações com o exterior, como se fossem sempre prejudiciais. Nos dias de hoje pode-se dizer que o oposto tem lugar: as relações com o exterior são quase sempre vantajosas para os dois lados.
 
(Alto) Valor Adicionado - Rigorosamente é o valor bruto da produção menos os valores pagos pelos insumos, valor que é distribuído aos fatores de produção trabalho e capital. No imaginário nacionalista a definição é diferente: tem a ver com o "grau de nacionalização" ou com a porcentagem dos insumos comprada dentro do país. Quando se fala em indústrias "com alto valor adicionado" presume-se que sejam aquelas onde exista maior valor adicionado por trabalhador: uma pesquisa para os EUA (ano base 1988) mostra, por exemplo, que a indústria de maior valor adicionado por trabalhador é a de cigarros (US$ 488 mil per capita) . A segunda é extração de petróleo (US$ 283 mil), seguida da automobilística (US$ 99 mil) e siderurgia (US$ 97 mil). A média para a indústria é US$ 66 mil por trabalhador. Ninguém seria tonto de sugerir uma "política industrial ativa" com vistas ao cigarro e ao petróleo, mas aqui no Brasil é comum ouvir que devemos favorecer os setores de "alto valor adicionado". Na verdade, o que o movimento nacional-intervencionista procura é um critério, ou um pretexto para que burocratas iluminados escolham setores para colocar o dinheiro do contribuinte na presunção que eles sabem mais que os próprios empresários.

Superávit comercial (e soberania) - Antes da economia surgir como uma disciplina digna desse nome em 1776, com a publicação da Riqueza das Nações prevalecia uma doutrina conhecida como "mercantilismo" segundo a qual o superávit comercial era a origem da prosperidade das nações e, por conseqüência, da soberania. Adam Smith demoliu essas idéias, mas é surpreendente como uma bobagem reembrulhada é capaz de sobreviver ainda por mais dois séculos. Se o leitor não estiver disposto a encara as 1.000 e tantas páginas do maravilhoso livro de Smith, basta lembrar que os EUA nos dias de hoje tem o maior déficit comercial do mundo, e não lhes falta soberania nem riqueza. Enquanto isso, aqui no patropi, tanta gente faz ares de resignada indignação ao justificar o retrocesso do Brasil depois do Plano Real apontando para a transformação do superávit comercial em déficit. E quantos jornalistas não falam no "rombo" das contas externas? Infelizmente, a economia não é tão intuitiva, de tal sorte que não é verdade que toda grandeza econômica que tenha sinal negativo seja ruim e deva ser chamado de "rombo". De um modo ou de outro, os nacionalistas há dois séculos se recusam a parar de usar a falácia mercantilista para enganar o povo mesmo sabendo que estão dizendo bobagem.

Diante dessas definições, é possível desconstruir o fragmento de discurso nacionalista acima citado, e reescrevê-lo como se segue:

"Precisamos nos livrar de projetos messiânicos conduzidos por burocratas intervencionistas, e seus chavões apelativos de qualidade duvidosa, e aprofundar nossos vínculos com um mundo em expansão e rápida transformação, e apoiar as empresas com sede no Brasil de forma horizontal e democrática, sem discriminações contra quem quer que seja, ou a favor dos amiguinhos da burocracia, e administrar o balanço de pagamentos com prudência sabendo que o déficit comercial é o estado natural de uma economia em desenvolvimento."