OESP e JB
06.02.2000

Melancolia
Gustavo H. B. Franco

A impressão que se tem, observando-se os escritos dessa tribo denominada "economistas de oposição", inclusive os que estão no governo, é que não se tem propriamente um pensamento econômico alternativo, ou alguma contraproposta organizada e factível ao consenso profissional que se formou depois do colapso do mundo socialista e das hiperinflações latino-americanas.Tem-se apenas melancolia. Em alguns casos, manifestada por meio de lamentação e ressentimento, e em outros casos na forma de uma jacobinismo rancoroso e denuncista. A zanga, todavia, é invariavelmente sem imaginação. Não há outro projeto, terceira via ou algo assim, apenas artifícios retóricos e reparos procedimentais, em muitos casos dignos de CPI. Mas a direção a seguir é essa mesmo que estamos vendo. O mundo está cheio de governantes de "centro-esquerda", com um passado de lutas pelas causas sociais, que, uma vez no poder, colocam em operação as políticas que antes chamavam pejorativamente de neoliberais ou coisa pior. A realidade da globalização tem sido muito dura com as utopias em geral e com os economistas "alternativos" em particular.
 
No Brasil especificamente, há pouco mais de um ano, havia uma esperança, uma poção mágica, que a oposição oferecia como solução para todos os males da economia: a desvalorização da moeda. Hoje em dia, depois de a poeira baixar, verificamos que os problemas continuam mais ou menos os mesmos e que, mesmo com o real fortemente subvalorizado, não se pode escapar das soluções que o governo tem procurado corretamente reconstruir: equilíbrio fiscal e reformas liberalizantes.
 
A melancolia é compreensível, mas não há para onde fugir.
 
As pessoas de certa idade, que se interessam pelos assuntos da economia, se acostumaram a ouvir que o desenvolvimento se confunde com a despesa pública, e que a independência econômica era sinônimo de autarquia (auto-suficiência) comercial. E subitamente, nove entre dez economistas, esses seres desprezíveis sempre fornecendo explicações para o inexplicável, dizem que tudo mudou e que esses mandamentos devem ser lidos ao contrário. Ou seja, a despesa pública é inflacionária, portanto socialmente injusta e prejudicial ao desenvolvimento, e a autosuficiência significa dinheiro jogado fora em investimentos antieconômicos, mediocridade tecnológica e consumidores insatisfeitos.
 
Como não se irritar com a obsolescência de idéias por tantos anos propagadas como verdades indiscutíveis, como teoremas basilares dessa nossa teoria econômica tropical estruturalista formulada diante das especialidades desse nosso capitalismo tardio, dependente e cordial? Será que as idéias também ficam obsoletas como as máquinas, quando as condições mudam, ou quando aparece uma outra melhor? Assim como o computador revolucionou tantas atividades, e irritou tantas pessoas que tiveram de se adaptar a uma nova maneira de fazer o que sempre fizeram, terá a globalização modificado fundamentalmente as fórmulas do crescimento econômico?
 
Sabemos que existe muita gente de cabelos brancos que já não se sente disposta a fazer os investimentos intelectuais necessários para adoção do computador e da Internet e os filhos e especialmente os netos dessas pessoas brincam com essas ferramentas com uma desenvoltura desconcertante.
 
O recurso ao dinheiro público e à proteção contra o estrangeiro são postura naturais, desenvolvidas durante anos por muitos empresários. Mas para uma quantidade crescente de novos empresários esses recursos não devem existir: o governo não tem de ficar escolhendo seus campeões, nem tem de interferir na competição, inclusive com os estrangeiros, senão para evitar que a eliminem. O que o velho establishment industrial encastelado nos palácios das federações e confederações tinha como a única maneira de fazer as coisas, tornou-se hoje, para a nova economia, tudo o que evitar. Uma empresa bem-sucedida, nos dias de hoje, deve procurar alianças estratégicas no exterior, com fornecedores de tecnologia, acesso a mercados e os melhores insumos do mundo, e tanto quanto possível, deve procurar distanciar-se do governo.
 
E as pessoas que construíram seus negócios, suas carreiras e suas idéias a partir das fórmulas antigas? O que será dessa gente? Não será natural imaginar um sincretismo entre essas novas idéias e as velhas?
 
Todo o problema é que o sincretismo entre abertura e fechadura, ou entre ajuste e desajuste fiscal, é a hesitação. Ou bem vamos ter um governo no velho figurino, com todos os berloques de antigamente, para escancarar as contradições e produzir logo uma grande decepção que nos levará, como sugeriu certa vez Roberto da Matta, a um liberalismo bem-comportado tipo chileno. Ou vamos encarar a globalização sem falsos temores e com redobrado bom senso.
 
Com efeito, diante de um mundo em rápida transformação, o uso continuado do bom senso cura qualquer esquisitice. E pode regenerar muitas mentes acostumadas com idéias obsoletas. No caminho, todavia, a melancolia parece inevitável. Há que conviver com ela. Quando passiva e contemplativa, não atrapalha o curso da história. Mas quando armada, recalcada, deságua em iniciativas eclético-geriátricas como a que busca impedir o capital estrangeiro de adquirir bancos estaduais.
 
Só no Brasil.