OESP e JB
23.01.2000


Remédios: o populismo e o kitsch
Gustavo H. B. Franco

 
O populismo econômico está em toda parte. Mesmo os melhores governos tem lá suas inclinações. O populismo seria, talvez, o lado kitsch da política econômica. É uma deturpação, que tem a sua lógica e o seu encanto. Muita gente resiste a tomar o kitsch como um estilo. Mas certamente não é meramente o descaso ou a ausência de estética. Está mais para o exagero que, por sua vez, resulta em uma deformação da estética de características muito singulares. O kitsch é espalhafatoso, sentimentalista e over. É o que as mulheres que são designadas como peruas exibem com bastante nitidez. José Guilherme Merquior forneceu uma definição mais abrangente, e que serve bem à economia: é o "agradável que não reclama raciocínio".
 
O populismo econômico tem essas mesmas características. É o exagero apelativo, a exacerbação do que a economia tem de intuitivo e simplório, mas é a negação da teoria posta em prática como desafio aos perversos limites impostos pelos insensíveis tecnocratas. É uma espécie de vingança do político, uma revolta contra os impedimentos que os economistas alardeiam, o almoço grátis que dizem não existir, o bem comum que sustentam ser impossível obter.
Ninguém deve duvidar da popularidade do kitsch, que não é necessariamente "material artístico de má qualidade", como define o Aurélio. Há gosto para tudo. Que o digam E o vento levou ..., Titanic, Meu pé de laranja lima, A cabana do Pai Tomás, os concursos de Miss Universo, o Cadillac Rabo de Peixe, a calça boca-de-sino, o verde-cheguei com rosa-choque, o estilo Versacce e tantos outros ícones da nossa cultura. O bom kitsch é quase sempre um sucesso de público, especialmente quando o sentimentalismo é bem urdido, espontâneo e bem ornamentado. E, da mesma forma, quase todo sucesso de público parece ter um pezinho no Kitsch, algo de apelativo ou comovente.
 
O populismo econômico pode ser relativamente inofensivo, um molho histriônico, como a volta do Fusca, o presidente andar de Jet Ski, ou cometer um pecadilho contra a economia de mercado como proibir o self-service nos postos de gasolina, ou a venda de remédios em supermercados. Mas pode ser um desastre, nunca evidente ou imediato, pois sempre parece coisa boa, especialmente quando observada na ausência de raciocínio. É o caso do combate aos preços abusivos cobrados pelos oligopólios, que temm grande apelo popular, mas tende a criar controles de preço e sérias distorções no funcionamento de certos mercados. O congelamento de preços é um apogeu populista, um exagero, especialmente quando comandado por líderes dignos de repúblicas bananeiras bradando contra as forças ocultas e inimigos do povo. Numa primeira aparição, pelo menos, é o agradável que não reclama raciocínio. Numa segunda, ou quando as distorções se avolumam, a mágica já não é a mesma. O fim é conhecido, e o herói morre no fim, de forma nem ao menos trágica, mas torpe e merecida, pois nada tinha de bom, era uma fraude.
 
Menos escrachado, mas muito mais danoso e duradouro, é o populismo clientelisma praticado com o uso da despesa pública. Parece redentor, pois é a cidadania conferida a excluídos mediante a inclusão no Orçamento de um benefício, direito ou garantia. É a acumulação desmesurada de todos os desejos, de todas as boas causas, num documento de intenções e compromissos do Estado. É a exacerbação absoluta da vontade de fazer o bem, que os políticos resistem a acreditar que possa levar ao mal, como alegam os economistas. Mas, infelizmente, é exatamente isso que se passa, como bem atesta nossa impetuosa e exagerada Constituição de 1988, cuja característica mais proeminente é consagrar uma multiplicidade de conquistas, todas meritórias, porém totalmente inconsistentes com o que a Sociedade quer pagar ao Estado a título de impostos. É puro Kitsch.
 
É também Kitsch, além de repetitiva, a efervescência recente, patrocinada por alguns setores do Executivo e do Legislativo, em torno dos "aumentos abusivos" de alguns medicamentos. A República de Juiz de Fora não faria melhor. Depois de uma "megamaxi", e de aumentos na gasolina e eletricidade (abusivos, esses?), o que se poderia esperar de gente que trabalha com insumos importados? Mas pouco importa a lógica econômica e a provável necessidade de desregulamentar a indústria farmacêutica, se é que estamos tratando do bem do consumidor. O setor foi, e sempre será, um alvo fácil para os populistas de plantão, pois também o é nas regiões desenvolvidas de clima temperado, onde reina, nesse mesmo domínio, o politicamente correto. O roteiro aqui é previsível e popular como o desenrolar de uma novela mexicana: preços abusivos, falsificação de remédios, visitas de autoridades a hospitais, com cenas de piedade e emoção, à la Evita Peron, ou de revolta pelo descaso e insensibilidade dos responsáveis. Em manifestações Kitsch, todavia, o sentimentalismo autêntico, ainda que enfeitado, funciona, dá Ibope. A imitação e a performance deliberada são tomadas como falsificações. É brincar com os sentimentos do povo. Não é Kitsch, é cafona mesmo.