OESP e JB
04.07.1999

Abertura: ainda falta muito
Gustavo H. B. Franco

As pessoas que não gostam dos rumos da economia mundial nos últimos anos, são capazes de desancar a globalização de muitas formas e em muitos idiomas. Mesmo no domínio das estatísticas, onde a embromação é mais difícil, essa gente é capaz de produzir alguns truques. Argumenta-se, por exemplo, que o grau de abertura comercial nos dias de hoje mal alcançou os píncaros de 1914, época de ouro da formação da economia internacional. E por isso a globalização nada mais seria que uma ideologia, uma enganação, essa coisa toda.

Com efeito, as exportações dos países da OCDE como proporção do produto interno bruto (PIB) em 1913 tinham atingido 11,9%, proporção que ainda não havia sido alcançada em 1973, quando chegou a 11,7%. Em 1993 a proporção já era de 17,1%. Para os EUA vistos isoladamente os números são ainda mais contundentes: em 1913 a razão exportações / PIB era de 6,1%, o que seria ultrapassado apenas em 1980, quando atingiu 8,3%. Em 1990 a proporção seria, inclusive, menor: 7,0%.

De fato, esses números são muito modestos para explicar toda essa extravagância em torno da globalização. Qual a explicação ?

Simples: o extraordinário crescimento do setor de serviços durante esses anos todos. Se os serviços crescem mais rapidamente que os outros componentes do PIB, a parcela do PIB correspondente a atividades nas quais pode haver comércio exterior – indústria e agricultura – fica menor. O "grau de abertura" medido da forma como fizemos acima, fica menor mesmo que a agricultura e a indústria se tornem atividades muito mais voltadas para o exterior. Tudo por que é muito difícil haver comércio exterior em serviços. Os economistas dizem que os serviços são, na sua maior parte, "non tradables", ou seja, não comercializáveis internacionalmente. Evidentemente se as economias desse planeta passam a ter o valor adicionado em serviços crescendo mais rapidamente que o na indústria ou na agricultura, as economias vão ficar ceteris paribus mais "fechadas".

É claro que isso pode mudar, e está mudando. Serviços como, por exemplo, um corte de cabelo ou uma massagem, dificilmente poderão ser importados: o consumidor pode estar no Rio de Janeiro e o prestador do serviço na Tailândia. Mas a Internet poderá fazer com que muitos serviços se tornem comercializáveis, ou seja, vendidos a consumidores de países diferentes do prestador do serviço, especialmente quando se tratar de serviços que não impliquem no contato entre produtor e consumidor, ou tenham como escopo o fornecimento de algum texto, parecer ou conjunto ordenado de informações.

Mas essas são tendências ainda incipientes, ligadas ao comércio eletrônico, cujo potencial é estratosférico e, se realizado apenas numa fração do que imagina, poderá alterar significativamente o "grau de abertura" da forma como medido acima.

Mas para se enxergar o processo de globalização tendo lugar nos dias de hoje, antes do "E-Commerce" explodir, a chave é a crescente e nem sempre percebida importância do comércio exterior dentro dos setores onde pode haver comércio, ou seja, dentro dos setores que os economistas chamam de "tradables", vale dizer, agricultura e indústria. O grau de abertura para esse setores, tomados conjuntamente, para os EUA em 1913 era de 13,2%, o dobro da razão exportações/PIB mencionada acima. Os 13,2% são ultrapassados já no final dos anos 1960, e em 1990, a proporção já atinge 31,4%, mais do quádruplo do "grau de abertura" medido da forma convencional. Que quer dizer isso ?

Quer dizer que as exportações dos EUA de produtos da indústria, agricultura e mineração correspondem a quase um terço do valor adicionado nesses setores. Ou seja, ruiu o argumento que um país dito "de dimensões continentais" tem uma vocação natural à autarquia (auto-suficiência, no idioma local). Foi-se o tempo. O grande país continental lá do Norte, os EUA, se globalizou tremendamente na sua manufatura e agricultura e as medidas convencionais de abertura encobriram esse fato.

Que dizer desse outro país "de dimensões continentes" aqui mais ao Sul, recentemente envolvido em um processo de abertura para muitos tido como excessivamente agressivo e mesmo contrário à nossa vocação de país "baleia" e à cultura da auto-suficiência ?

Os números para o grau de abertura do Brasil medidos da forma convencional são como os números americanos, ridiculamente baixos: 6,6% do PIB para 1998. Esta proporção teria sido de 14,8% do PIB em 1913 segundo uma estimativa minha mesmo, de qualidade duvidosa diante dos dados disponíveis. Faz sentido, todavia, argumentar que o grau de abertura no Brasil só teve motivos para diminuir desde 1913: além do crescimento do setor de serviços, como em qualquer parte, tivemos aqui um processo deliberado de busca da auto-suficiência. Pior para nós.

As coisas mudaram apenas no início dos anos 1990, e em particular depois do Plano Real. Não existem para o Brasil cálculos comparáveis aos que acima foram mostrados para os EUA, ou seja, para o grau de abertura dos setores "tradables". Temos, todavia, alguns números bastante informativos sobre tendências recentes na indústria. O "grau de penetração das importações de manufaturas", por exemplo, é a proporção que as importações ocupam no total da oferta desses produtos (que é igual à produção mais as importações menos as exportações). Essa proporção era de 8,5% em média para 1991-93, e alcançou 20,5% em 1998. Um notável avanço, mas que nos coloca em um nível ainda bem distante do que se observa para outros países "de dimensões continentais", tomando os EUA como base de comparação. Do lado das exportações de manufaturados, vistas como proporção da produção doméstica, o que temos hoje (1998) é uma razão de 17,0%, que era de 13,2% em média para 1991-93. Também temos, nesse terreno, muito chão para cobrir.

A conclusão aqui é simples. A abertura no mundo e nos EUA é muito maior do que se pensa e a nossa é ainda muito inferior à que se observa, por exemplo, nos EUA. A idéia de se retroagir à substituição de importações e "retornar à normalidade" no tocante a "graus de nacionalização", idéias geralmente empacotadas dentro da expressão "adensamento das cadeias produtivas", e outros coquetéis retóricos de substância meio rala, não vão propriamente de encontro a tendências internacionais e precisam ser consideradas com muita cautela.