OESP
03.02.2002

 

 

Davos em Nova Iorque: Tolerância zero

Gustavo H. B. Franco

 

 

Em razão dos eventos de 11 de setembro, o Forum Econômico Mundial (FEM), normalmente organizado em Davos, na Suiça, está acontecendo no coração do Manhatan, na cidade de Nova Iorque.

Na última edição do FEM, em Davos, a violência e a petulância dos movimentos de rua – os “hooligans” da globalização - ficou na lembrança de todos. Os temidos torcedores ingleses, bêbados e desordeiros, não seriam capazes de fazer um papelão maior. A diferença é que os vândalos da globalização são tolos o suficiente para acreditar que representam “a voz das ruas”, ou que a baderna que patrocinam pode ter alguma leitura que faça sentido.

Com efeito, esta impunidade é filha de uma distorção que está devastando muitos países desenvolvidos – o politicamente correto. Sendo “incorreto” botar em cana, por exemplo, um ambientalista que atira tijolos em vidraças para chamar atenção para sua bela causa, é normal de se esperar que estas atividades proliferem, como de fato tem ocorrido na Suiça, em Praga, Gênova, ou mesmo em Washington.

Nenhuma cidade se mostrava disposta a receber reuniões como as da OMC ou do FMI, o mundo parecia rendido a desordeiros. A própria Davos, berço do FEM por muitos anos, começou a encrencar com os organizadores do forum em torno dos custos relacionados á segurança, estimados em cerca de US$ 7,5 milhões.

O Professor Klauss Swchab, então,  teve a idéia, e o prefeito Rudolph Giuliani aceitou sem pestanejar: vamos levar a globalização para a sua capital, e vamos discutí-la na mesma cidade que sofreu a maior e mais bestial de todas as agressões idiotas à globalização.

E assim, ao mudar o FEM para Nova Iorque, os seus organizadores prepararam uma espécie de armadilha para o vandalismo anti-establishment. O ataque terrorista de 11 de setembro, como se sabe,  levou embora diversos quadros do Departamento de Polícia da Cidade de Nova Iorque, bem como de seu Corpo de Bombeiros. Há dias porta vozes destas organizações vêm dizendo que a tolerância contra qualquer espécie de indício de intenção de pensamento em violar a lei será exatamente igual a zero. Há dias as televisões vêm mostrando o treinamento anti-protestos, que tem ocorrido em um estádio de futebol, e de fato, os ensaios parecem mesmo lembrar um jogo de futebol americano, ou um treinamento de fuzileiros. As equipes, a julgar pelas imagens, parecem estar não apenas preparadas mas ansiosas pelo enfrentamento.

Na verdade, não será difícil para os policiais novaiorquinos, que andaram lidando bem de perto com a tragédia das duas torres, enxergar nos manifestantes a mesma matriz ideológica, e o mesmo tipo de embocadura, dos terroristas que perpetraram a barbaridade de 11 de setembro. Todos estarão nervosos e irritados, e mais: não serão apenas as equipes responsáveis pela manutenção da ordem, mas o distinto público também. O cidadão comum, residente em Nova Iorque, está geralmente mau humorado nesta época do ano, quando o inverno teima em não terminar. Eventos que atrapalham a rotina da cidade, e provocam engarrafamentos intermináveis, são sempre vistos com irritação, mesmo quando se tratando de festas e shows.

Desta vez, todavia, não é nenhum festival, mas a perspectiva de baderna provocada por gente não de todo antipática às causas extremistas. Diversas ruas foram fechadas em torno do Waldorf Astoria, na Park Avenue, nenhuma localização poderia ser mais central. Portanto, mais engarrafamento impossível. Barricadas e policiais, detetores de metais, sirenes e comboios estão distribuídos por toda parte. Os transeuntes vêm sendo solicitados a mostrar documentos, e o estacionamento se tornou impossível nas cercanias. Os policiais andam colhendo o que há de pior em matéria do já proverbial mau humor tipicamente novaiorquino. Com este aparato de segurança a impressão que se tem é que as manifestações de protesto podem perfeitamente ser trucidadas por cidadãos comuns irritados com mais esta invasão em sua cidade.

O Prefeito Rudolph Giuliani fez um bom acordo com São Pedro, o qual, também solidário com a cidade, e provavelmente também irritado com essa confusão, resolveu mandar uma chuva fina e gelada e recolher o bom tempo que vinha fazendo dias antes do início do FEM.

Diante disso, os pronunciamentos dos grupos empenhados em promover manifestações tem sido de uma moderação exemplar. Mas a expectativa é grande, e o New York Times descreveu a atmosfera como a de uma estreia na Broadway. Se vamos ver manifestações civilizadas, ou uma pancadaria sem controle, com o possível envolvimento do  público, não é possível dizer. O espetáculo estará na cidade por cinco dias apenas, a crítica e o público são sempre imprevisíveis.

Pelas ruas, é interessante ver que ninguém têm clareza nem interesse em saber o que mesmo esses chefes de estado e presidentes de empresa estão fazendo. A resposta é meio vexaminosa mesmo: o FEM é um evento “comercial”, ou seja, tudo é pago, e caro. Os fins não são lucrativos, mas neste caso, é difícil enxergar alguma diferença entre o terceiro setor e o segundo.

Quanto ao encontro mesmo, note-se que absolutamente nada é decidido, trata-se apenas de um seminário, com palestras, discursos e muito “networking”, ou seja, trocas de cartões e contatos empresariais. Para isto, um convidado normal, associado á fundação que promove o evento, paga uma anuidade de US$ 25 mil, ou US$ 6 mil pelo evento isolado. Será que vale?

Numa entrevista, pelas ruas, alguém respondeu com propriedade, mas sem razão: “tem coisas que só acontecem em Nova Iorque”.