OESP
6.1.2002

 

 

Começando bem 2002

Gustavo H. B. Franco

 

Bons ventos começam a soprar sobre a economia brasileira, e  já fazem algumas semanas. O ano de 2001 foi repleto de catástrofes que não se materializaram, ao menos na extensão em que se imaginava. E algumas das nuvens negras que se adensavam para 2002 parecem se dissipar.

No primeiro semestre de 2001, a crise no Senado, com as renúncias de diversos senadores de peso, inclusive seu Presidente, o quarto homem na linha de sucessão, não destruiu a governabilidade nem o governo. Ponto para o nosso Congresso.

 A desaceleração da economia americana de fato ocorreu mas está bem distante de autorizar diagnósticos sombrios sobre a economia global. É verdade que os amantes do gênero “capitalismo catástrofe” ganharam alento depois dos atentados de 11 de setembro,  mas os quinze minutos de ribalta concedidos a estes senhores já terminaram. Os Talebãs levaram uma surra, os juros americanos estão baixíssimos, o Euro começou muito bem, e uma recuperação está a caminho.

A crise de energia não foi a desgraça que se alardeou, pois a racionalidade do consumidor prevaleceu sobre o racionamento, de tal sorte que a fase aguda do problema já passou ficando, todavia, o desafio de retomar a modernização e os investimentos no setor.

A Argentina vem nos oferecendo uma ameaça de crise desde meados de 1999. A agonia argentina teve ciclos durante esses últimos anos mas, a “taxa de contágio”, ao contrário das expectativas, foi diminuindo. Quando, finalmente, teve início o desfecho do drama, com os primeiros sinais de medidas “heterodoxas” (calotes e alongamentos forçados de dívida, congelamento de contas bancárias, controle de câmbio), nada aconteceu conosco. Os vínculos antes tão fortes parecem ter desaparecido, ao menos por ora.

Vale registrar que  a Argentina caminha de uma política equivocada – o regime de conversibilidade com paridade fixa – para outra, o nacional-populismo peronista cinqüentão, cujas emanações em muito se assemelham às dos nossos desenvolvimentistas, especialmente os que andaram fazendo guerra de guerrilha dentro do Governo nos últimos anos. Há focos peronistas em São Paulo, não há dúvida, todo cuidado é pouco.

A economia não se comportou mal em 2001, especialmente diante de todos estes fatores exógenos de perturbação. Foi sábia a decisão de estender o acordo com o FMI até o final de 2002 o que, a julgar pelo que até agora se observou, não apenas nos ajudou na frente externa como serviu para evitar o “ciclo político” na política fiscal.

É verdade que o dólar foi longe demais e que isto criou problemas talvez desnecessários, mas as coisas estão se corrigindo, o dólar caindo, a Bolsa subindo por que estava mesmo uma pechincha e o risco-Brasil caindo por que estava superestimado mesmo. O mercado tem como certo que os juros devem cair.

A isto deve se adicionar, e aqui entramos em terreno polêmico, o fato de que esta entidade conhecida como “o mercado” parece enxergar hoje as eleições presidenciais com muito mais otimismo que no passado recente. A liderança folgada do candidato do PT nas pesquisas “estimuladas” talvez tenha fornecido, ao longo de 2001, a falsa impressão de que a oposição ganharia as eleições presidenciais com facilidade, a despeito de as pesquisas na modalidade “espontânea” mostrarem um grau de indecisão ainda muito grande (superior a 60%).

O mercado sabe fazer conta: se 2/3 dos brasileiros se declaram “sem candidato” na pesquisa espontânea e na “incentivada” Lula tem 30%, é fácil concluir que 2 de cada 3 eleitores de Lula se declaram sem candidato, numa primeira abordagem. Para quem percorrer os 77 parágrafos do documento síntese do  12o Encontro Nacional do PT, realizado em Recife em meados de dezembro passado, ficará claro que não existe “versão light” do candidato Lula, como se imaginou em certo momento, e que prevalece a intenção de efetuar uma “ruptura com o atual modelo econômico”. Isto apenas reforça a fragilidade da candidatura Lula, que também se revela através do fato de que, sem ter dito uma palavra sobre o que pretende fazer caso eleita, a governadora Roseana Sarney já está batendo o candidato do PT no segundo turno, conforme pesquisa Datafolha de algumas semanas atrás.

Estas percepções são parte dos bons ventos que sopram neste início de ano.  É boa para a economia a percepção de que não vai haver “ruptura com o atual modelo econômico”, que a economia global vai se recuperar, que vamos trilhar caminhos convencionais, que as aspirações do país serão livremente manifestadas em mais uma eleição direta na plenitude democrática e que os radicalismos serão, uma vez mais, rejeitados.

Navegando nestas previsões, o mercado entende que a queda no “risco-soberano” deverá permitir redução nos juros, maiores horizontes para o investimento privado, nacional e estrangeiro, e melhores perspectivas de crescimento.

Começa bem 2002, aos olhos do mercado, o qual, como se sabe, sempre exagera as coisas.