OESP
16.09.2001

 

Terror e (anti) globalização

Gustavo H. B. Franco

 

 

 

As autoridades americanas falam abertamente em Guerra, os preparativos parecem estar em andamento, os mercados financeiros com a respiração suspensa, mas conforme candidamente registrou um alto funcionário da CIA no dia do atentado, não se sabe ainda contra quem. Alguns estados muçulmanos são candidatos, a expectativa é grande.

 

Num célebre episódio de 1997, já parte do folclore das conferências financeiras internacionais, o Primeiro Ministro da Malásia, Mahathir Mohamad dirigiu-se a uma platéia onde se encontrava o Secretário do Tesouro dos EUA, Robert Rubin, e sugeriu que o ataque especulativo contra a moeda de seu país era obra de “uma conspiração judaica”.

 

Thomas Friedaman, um respeitado colunista de relações internacionais do New York Times, também testemunha do discurso, escreveu pouco tempo depois em seu livro (“O Lexus e a Oliveira”) sobre o que se passou na mente de Rubin, imaginando que este pudesse se dirigir ao líder malaio. Rubin teria pensado, segundo Friedman: “A verdade mais elementar sobre a globalização é a seguinte: ninguém está no comando, nem George Soros, nem as “Grandes Potências”, nem eu. Não desencadeei a globalização. Não posso interrompê-la e tampouco você”.

 

Coisa semelhante parece se passar com o Presidente Bush que não se vê diante de uma agressão militar da parte de um Estado Nacional, e portanto, como Mahathir, não sabe exatamente com quem estará em guerra. Mas precisa de uma guerra.

 

Mesmo que seja demonstrada uma correlação entre o senhor Bin Laden e o ataque a Nova Iorque, uma guerra entre o EUA e o Afeganistão, ou uma “retaliação pontual”, poderá ser tão sangrenta, espetacular e inútil como o próprio atentado que a originou. É preciso resistir a tentação da popularidade fácil, produzida pela demanda por vingança verificada nas pesquisas de opinião, pois pode colocar a perder a autoridade moral ganha pelos EUA e reverter o dano causado a todos os inimigos da Democracia, da globalização e dos valores da economia de mercado. O Presidente Bush está diante de uma decisão histórica, a sua grandeza estará, possivelmente, na moderação e não na truculência.

 

No mundo globalizado os mercados financeiros escaparam ao assédio das regulações nacionais, da mesma forma como a Hegemonia Militar Norte Americana, tanto exaltada temida pelos analistas de esquerda, foi espicaçada pelo crescente poderio de Organizações Não Governamentais (ONGs) sem nacionalidade. O poder das ONGs deriva de sua capacidade de captação de recursos e da intensidade da sua militância. ONGs muito ricas podem trabalhar muito ativamente nos parlamentos nacionais, e não precisam empreender ações espetaculares, nem atritar-se com a polícia. Outras ONGs mais radicais podem perfeitamente dobrar países, como vimos na reunião da OMC (Organização Mundial de Comércio) de Seattle, ou nas últimos reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial. O espectro de ações aí vai das “performances” do Greenpeace, às pancadarias de rua, passando pelas invasões do MST e chegando às guerrilhas, bombas, seqüestros e armas químicas.

 

Os Estados nacionais podem ser tão impotentes para manter o jogo político dentro de certos limites, quanto os bancos centrais para ordenar os mercados financeiros internacionais. Não há como regular, por exemplo, a negociação dos títulos da dívida externa brasileira, pois tudo se passa fora de qualquer jurisdição regulatória. Da mesma forma, não se consegue policiar certos movimentos radicais, mesmo que o Estado onde se hospede o terrorista não o acoberte. Não esquecer que o autor da explosão de Oklahoma, assim como o Unabomber, eram cidadãos e residentes nos EUA.

 

Há certamente uma linha divisória entre o que faz parte da paisagem da Democracia, e o que é assunto de polícia. Mas não há nada de claro com esta linha e a notável ascensão do “politicamente correto” tornou as coisas ainda menos claras. Cresceu muito a movimentação e a petulância de ONGs e movimentos “anti-globalização”, e tem havido uma grande dose de condescendência com relação à violência por parte desses agentes. A baderna de Seattle chegou a ser saudada como “vitória das ruas”. A depredação de uma lanchonete McDonald, ou de uma plantação de soja transgênica, ou uma invasão de uma fazenda, parecem coisas normais, quando não deveriam ser. O fato de o dano ser apenas material não diminui sua ilegalidade e a sua violência. E dessas pequenas violências facilmente nasce uma grande.

 

Há um problema de causa e efeito, é claro. Será o terrorismo apenas um produto mais radical do caldo de cultura anti-globalização? Um protesto da parte dos “excluídos” apenas equivocado quanto aos métodos de luta? Ou uma barbaridade perpetrada por um grupo de lunáticos?

Independente do que faça o Presidente Bush, o atentado deve nos proporcionar uma reflexão sobre os limites da ação política, e sobre esta estranha “liberdade para depredar” de que desfrutam os movimentos anti-globalização.