OESP e JB
13.05.2001

 

Pessimismo
Gustavo H. B. Franco

 

 

Recentemente, numa palestra em Nova Iorque, o outrora todo poderoso presidente do Federal Reserve, o banco central americano, Paul Volcker, demonstrou que a idade apenas apurou sua reconhecida habilidade para ironias de finíssimo gosto. Em sua fala dedicou trinta segundos à finada "exuberância" que existia nos mercados de ações, em particular, no terreno das empresas de tecnologia, e contou que fora convidado para uma palestra para uma associação de empresários da área de fundos de capital de risco (o chamado "Venture Capital"). Fez, então, uma pausa bastante bem estudada, a ponto de ocasionar risos na platéia. Nesta profissão, talvez mais do que em qualquer outra, o silencio é sempre revelador. São necessários, de fato, dois segundos para perceber que convidar Volcker, ou Greenspan, para falar para administradores de empresas pontocom, é um erro de recrutamento. É música clássica numa festa de adolescentes.

Volcker conta que não havia se preparado para falar para este público mas quando já se aprumava para seu improviso percebeu que o palestrante que o antecedeu, um gigante do setor, havia esquecido suas notas sobre a mesa. A primeira frase do documento era um achado: "o sujeito que para trabalha com capital de risco ("Venture Capital" em particular) tem que ser um otimista". O resto ele não leu. Isso já lhe bastava. Leu a frase em voz alta e complementou: "e para trabalhar em banco central, em contraste, o sujeito precisa ser um pessimista". A platéia sorriu amarelo, segundo ele, pois não era bem um pessimista que estavam querendo ouvir. Mas Volcker, em seu improviso, procurou explicar que sem estabilidade monetária não há vida econômica inteligente, e que, ao fim das contas, a prosperidade americana do qual todos ali vinham tirando proveito, tinha tudo que ver com o trabalho de base do Federal Reserve.

O pessimismo dos bancos centrais, todavia, é de uma variedade benigna, pois provem da cautela, que deve ser a característica de toda linha de zagueiros. No Brasil existem muitas outras formas de pessimismo, nem todos benignos. O pessimismo de boa parte dos economistas de oposição, por exemplo, não é benigno nem sincero. Desde quando a oposição perdeu a eleição de 1995 resolveu ignorar o fato de que foi derrotada por um programa e por um candidato melhor e adotar a arrogante versão de que a população havia sido ludibriada. A insistência nesta tese, quatro anos depois, a levou a outra surra nas eleições de 1998.

Hoje em dia a oposição argumenta que sua crítica estava correta, e que tudo era falso mesmo. A bravata se parece com a velha jogada de Leonel Brizola, que foi o único brasileiro a dizer, no momento do lançamento, que o Plano Cruzado ia dar errado em função das "perdas internacionais". Ninguém até hoje soube o que eram as "perdas internacionais", mas quando o Cruzado fracassou muita gente disse que Brizola era um gênio em economia. Quem sabe as coisas não tenham começado a dar errado no segundo mandato do Presidente Fernando Henrique justamente por que o Presidente foi convencido por seus amigos "desenvolvimentistas" que tinha de acatar a "crítica da oposição" e desvalorizar a moeda, parar com as reformas e investir no "social" ?

Mas o fato é que estão pessimistas não apenas o Banco Central, por deformação profissional, e os economistas de oposição, por oportunismo, mas um número muito maior de pessoas. Este pessimismo generalizado, que já contaminou os mercados financeiros faz tempo, deve, todavia, ser visto como de curto prazo, pois seus horizontes não vão além do jornal de ontem. Mas, infelizmente, é desse material que são feitas, por exemplo, as classificações de risco soberano para o Brasil. As agências internacionais que cuidam dessas classificações adotam sistemas de letrinhas que podem sempre ser transformadas numa escala de zero a dez. Nossa nota fica ali pela casa de um três ou três e meio. Um horror. Em escalas de risco-país feitas, por exemplo, pela revista Euromoney, nossa posição no concerto das nações também não é nada boa. Existem outros "rankings" internacionais de "Competitividade Internacional", "Dinamismo", e "Liberdade Econômica" onde sempre aparecemos mal, lá pela quadragésima ou sexagésima posição. Todos esses "rankings" são feitos com base em indicadores econômicos de curto prazo.

Um único e solitário índice onde aparecemos bem, na verdade em segundo lugar, é um "ranking" feito por uma das maiores empresas de consultoria internacional, a A. T. Kearney, que, com base em questionários respondidos por diretores de grandes empresas globais, procuram aferir a atratividade econômica de diferentes países. Desde o Plano Real o Brasil passa a aparecer em segundo lugar nessas pesquisas, sempre atrás dos Estados Unidos. Não será por esta razão que recebemos US$ 130 bilhões em investimentos diretos de 1995 até hoje, tendo recebido apenas US$ 52 bilhões no período que começa em 1822 e termina em dezembro de 1995?

Esses números, combinados com a avaliação estratégica dos executivos de grandes empresas internacionais ouvidos pela A. T. Kearney parecem sugerir que prevalece um significativo otimismo "de longo prazo" nos meios empresariais, a despeito de um evidente pessimismo "de curto prazo". De fato, todos estão a reclamar, e a se entregar a prognósticos de catástrofe, exatamente como nos velhos tempos. O dólar dispara ao sabor dos escândalos políticos, das conspirações e dossiês, pouco importa se verdadeiros ou não, do noticiário argentino e dos preparativos para 2002. A crise elétrica pareceu ficar pior quando o governo, ao reagir, adotou linguagem e postura próprias dos "pacotões" de antigamente, aí incluída até alguma falta de sintonia com o nosso ordenamento jurídico.

Felizmente, o pessimismo brasileiro, quando não hipócrita, é volúvel, dando rapidamente lugar a um otimismo endêmico, quase sempre oculto, mas que sempre pareceu governar o nosso inconsciente coletivo. Desta forma, a experiência passada sugere que, seguindo-se a uma onda de pessimismo, virá outra de otimismo, igualmente infundado.