OESP e JB
11.03.2001

 

Por que a torcida contra a Argentina
Gustavo H. B. Franco

 

 

 

 

 

A troca de ministros da fazenda efetuada na Argentina recentemente foi um susto. No sábado o diagnóstico era “brejo” e muita gente estava nervosa. Mas na segunda feira pela manhã, com um novo ministro de “perfil ortodoxo” plenamente instalado, o clima era de euforia. A Argentina continua navegando com a insustentável leveza de um besouro, e sem se incomodar como uma certa torcida contra. A paridade fixa com o dólar já dura mais de dez anos, e a discussão quanto a seus méritos não mostra sinais de arrefecer.

Todos reconhecem que o regime cambial argentino torna a economia demasiado sensível às condições externas, o que é ótimo quando a economia global vai bem, mas é muito dolorido em tempos nublados como os de hoje. Há pouca clareza sobre as alternativas, e muitos defensores do regime em vigor. Um dos mais aguerridos, inclusive, é o controvertido professor Rudiger Dornbush, o qual, curiosamente, também apóia a flutuação cambial no Brasil. Temos aí, portanto, um partidário da tese de que não há regimes ideais para todas as épocas e lugares. Ou seja, o que serve para a Argentina não necessariamente é bom para nós, e vice versa, mas tudo dependendo das circunstâncias.

Uma avaliação equilibrada da situação Argentina tem sido prejudicada por duas classes de posturas deturpadas muito comuns aqui e também, embora em menor escala, lá fora. A primeira é a necessidade de “hedge intelectual” para quem é forçado a dar opiniões sobre o assunto. Antes que o leitor, com razão, reclame de mais um jargão em idioma estrangeiro, aqui vai a explicação: “hedge” é um termo oriundo da ciência das finanças, muito difícil de traduzir, e que diz respeito a mecanismos de proteção patrimonial quando os mercados evoluem de forma adversa. “Hedge” é um conceito mais amplo que “seguro”, e como este, não é de graça pois o sujeito que quer reduzir riscos em seus investimentos tem de pagar por isso.

“Hedge intelectual” é um conceito da ciência do comportamento e diz respeito à proteção de reputações que correm risco quando o detentor de capital intelectual precisa fazer previsões. Na verdade, como demonstra a experiência das agências de classificação de risco, é sempre menos danoso prever uma crise que não acontece, do que deixar de profetizar uma que aconteceu. Por isso se observa de forma geral algo que certa vez se disse sobre o crescimento nos EUA: os economistas de fato previram dez das últimas cinco recessões. Em resumo: o pessimismo é um excelente “hedge intelectual” e tanto a Argentina como o Brasil tem sido vítimas desse tipo de comportamento utilitário da agências de risco. É claro que, como o “hedge” não é gratuito, acaba que um tanto da reputação dessas agências, e dos pessimistas em geral, acaba sendo erodido pelo fato do desastre não ocorrer.

Na Argentina este pessimismo advindo do “hedge intelectual”, ou de oportunismo político, é praticamente inexistente. Afinal, são dez anos passados. Já no Brasil, quando se trata de Argentina, são poucos os que não dizem que o desastre é questão de tempo. Mas a explicação para isto nos remete a uma segunda deturpação a prejudicar as percepções sobre a Argentina, a de observar a situação do vizinho com nossos próprios termos e parâmetros, como se fora uma extensão da discussão do regime cambial brasileiro. Quando tínhamos um regime que era meio caminho entre flutuação e rigidez, as autoridades brasileiras podiam participar de debates com Mexicanos e Argentinos e elegantemente enxergar virtudes em ambos. Eles, todavia, faziam grande esforço para exaltar seu regime como o melhor para si, mas sem avacalhar com o alheio, o que nem sempre era simples. Agora que nós brasileiros somos flutuadores desde criancinhas, parece que adotamos uma postura que os argentinos estão doentes, fazendo tudo errado e condenados ao sofrimento e a um crescimento medíocre. Com esta postura, os nossos “desvalorizadores” levam para lá o debate brasileiro, que ninguém agüenta mais, e um dogmatismo no tocante a regimes cambiais que até o professor Dornbush abandonou.