OESP e JB
04.03.2001

 

Mundo vasto mundo
Gustavo H. B. Franco

 

 

 

 

Andam populares os vaticínios de catástrofe vinda do exterior, qualquer que seja sua natureza. O tema é recorrente, e decorre de uma melancolia “fin de siecle” que elege como raiz de todos os males o fenômeno da globalização. Todos os ressentimentos derivados do processo de modernização acelerada que o Brasil vivenciou nos últimos anos se traduzem numa monótona pregação monotemática, cujo centro é a expressão “vulnerabilidade externa”.

No tempo em que o Real flutuava dentro de uma banda, apontava-se a política cambial como a fonte da “vulnerabilidade externa”. O Real perdeu 40% de seu valor (se medido em termos de preços ao consumidor) depois de flutuar, e o pessimismo endêmico da oposição continua a recorrer à tal da “vulnerabilidade externa”.

Há, de fato, enorme valor simbólico em colocar as limitações do nosso crescimento em fatores fora do nosso alcance. Apela-se ao nacionalismo, aos medos primordiais do desconhecido e do escuro, e à irracionalidade em se admitir que somos afetados pelo que se passa na Indonésia, Turquia ou Afeganistão.

Um ingrediente mais recente neste complexo de receios é o comportamento da economia americana. Nada pode fazer vibrar mais um economista do gênero “alternativo”, desses que não dizem três palavras sem gastar duas com “vulnerabilidade externa”, do que especular sobre um possível colapso da economia americana.

Mas será mesmo que a economia americana tem problemas?

Nos últimos anos os Estados Unidos estiveram crescendo a taxas na faixa de 4% a 5% anuais, um número considerado exuberante para quem tinha um média na faixa de 2,5% ou 3% na década anterior. Muito se falou sobre “exuberância irracional”, sobre ações sobrevalorizadas, poupança negativa, fragilidades no sistema bancário mas o fato é que os aumentos nas taxas de juros pareceram deixar para trás estas apreensões. O mercado pareceu localizar a “irracionalidade” no preço das companhias de tecnologia, listadas no Nasdaq, a bolsa eletrônica das empresas da Nova Economia. Neste universo de empresas houve de fato uma “correção” de preço, e não quem diga que não era inevitável. Muitas empresas perderam 40%, 50% ou mesmo 80% de seu valor, e os efeitos da correção não pareceram extravasar as fronteiras dessa indústria específica.

Há anos que os americanos acompanham estatísticas macroeconômicas e muitas pequenas regras foram inventadas para facilitar esta leitura. Uma delas é a de se agregar as expectativas para determinada variável num valor dito “de consenso”. Para o crescimento da economia americana para 2001, por exemplo, existem previsões que vão de 1,1% a 2,8%, mas o “consenso”, ou a expectativa média, é de 1,8%. Para 2002, as previsões estão entre 3,3% e 4,7%, mas ainda não há um “consenso”.

Outra definição interessante acerca do comportamento do PIB é que se fez para o vocábulo “recessão”: diz-se haver uma recessão quando ocorrem dois trimestres seguidos de crescimento negativo. Diz-se, portanto, que a economia americana “tecnicamente” deverá estar em recessão no primeiro semestre de 2001. No segundo semestre, mercê da decida reação do Federal Reserve, ninguém concebe a inexistência de uma recuperação.

Ficamos, portanto, assim: quando a economia americana está exuberante a ponto de provocar a irritação das hostes anti-americanas cresce um tanto acima de 4%. Quando está em uma recessão que enche de alegria estas mesmas hostes, o crescimento é ligeiramente abaixo de 2%. Convenhamos, não é um ciclo econômico muito emocionante, embora seja suficiente para provocar um bocado de excitação nos mercados financeiros.

Não parece, portanto, que estejamos próximos de nenhuma crise na economia americana. A Europa, por outro lado, poderá ter um bom ano e sobrepujar os EUA em crescimento. De todo jeito, o ânimo comprador, ou investidor, de  portugueses e espanhóis, continua elevado. O Japão continua estagnado, mas aparentemente livre de crises e sobressaltos, enquanto o restante da Ásia vem se recuperando com vigor.

A Turquia tem problemas, isso é certo. E a Argentina parece encarar uma nova rodada de dúvidas sobre o seu futuro. A “blindagem”, afinal de contas, não era tão robusta como se disse, todos percebemos, mas era preciso ajudar. Com o Brasil crescendo, e o mercado internacional em boas condições, a Argentina continua “blindada”.

O mundo é muito vasto para que sempre haja alguma coisa posta em dúvida, algum país encrencado com sua dívida, sua taxa de câmbio ou sua política fiscal. Haverá sempre um governo sendo deposto, uma eleição surpreendente, um ministro corrupto e um banco quebrando. A novidade é que cada um desses eventos será tomado como demonstração de que existe “vulnerabilidade externa”, e que, portanto, a modernização da economia brasileira foi apressada e imprevidente. Para muitos economistas o progresso será sempre uma irresponsabilidade.