OESP e JB
28.01.2001

 

Por um mundo melhor
Gustavo H. B. Franco

 

 

 

É extraordinária a estatura que assumiu o Fórum Econômico Mundial (FEM), ora em andamento em Davos, na Suíça, na sua trigésima primeira edição. De tão bem organizado o FEM fez com que Davos deixasse de ser o cenário de “A Montanha Mágica”, o clássico romance de Thomas Mann, para se tornar o abrigo simbólico dos supostos condutores da globalização, um parada obrigatória para a elite econômica internacional, tal qual as reuniões da OMC (Organização Mundial do Comércio) e do FMI (Fundo Monetário Internacional) e Banco Mundial. Poucos se dão conta que o FEM é um de muitos eventos, nada mais que um mega-seminário que gera livros, filmes, revistas, todos produzidos por uma ONG (organização não governamental) muito rica, como tantas outras, e extremamente competente em cumprir seus propósitos estatutários. 

Há certa malícia, mas boa dose de verdade em se dizer que os objetivos desta ONG refletem a visão de seus patrocinadores, em geral, grandes empresas internacionais, sobre o que deve ser um mundo melhor. Mas são muitas empresas, e o vulto do empreendimento é tal que já não mais possível viesar grosseiramente a sua agenda como supõem algumas teorias conspiratórias sobre o que se discute de Davos. Não se imagina que Yasser Arafat, por exemplo, vá a Davos emular as conquistas da globalização.

Para colocar as coisas em seus merecidos lugares, tenha-se claro que o FEM é um evento, que já se desdobrou em uma infinidade de produtos, extremamente bem sucedido no plano do “marketing” e proporciona um dos mais relevantes “cases” de sucesso de empresas do Terceiro Setor. Na verdade, o FEM é a prova viva da extraordinária importância que hoje adquiriram algumas ONGs no cenário econômico internacional.

Cá no Brasil não passou desapercebida dos especialistas em “marketing” o fenomenal crescimento do Terceiro Setor, vale dizer, o enorme interesse das pessoas em buscar participar de debates, ou apoiar ações que lhes interessam, fora dos eixos tradicionais de participação política. Todos querem um mundo melhor, mas ninguém tem interesse em inscrever-se num partido ou eleger-se vereador. Tanto que no Rio de Janeiro um festival de “Rock” foi empacotado como uma espécie de ONG e teve um monumental sucesso comercial.Durante o festival, abriram-se espaços para debates sobre um mundo melhor envolvendo representantes das Nações Unidas e também da Nação Yanomami, para não falar de inúmeras ONGs, bem como personalidades tais como Leonardo Boff, Paulo Coelho, José Ramos Horta, líder timorense, Nobel da Paz, dentre dezenas de outros. Tudo muito ordenado, sem conotações políticas, e até mesmo inocente em seus factóides, como os três minutos de silêncio por um mundo melhor no início dos trabalhos. E o Movimento Viva Rio levou um pedaço do faturamento para ajudar o belo trabalho que vem fazendo na área de educação de jovens carentes nas favelas do Rio de Janeiro.

O Rock in Rio foi um sucesso de público e de mídia, como provavelmente será o Fórum Social Mundial (FSM) em Porto Alegre, por razões em boa medida semelhantes e que podemos resumir observando que ambos absorveram as lições do sucesso do FEM em Davos. No caso de Porto Alegre a conexão é bem mais evidente pois os termos de referência aludem claramente a um “contra-ponto” ou a “uma alternativa” a Davos. Na prática, o mais importante é que o FSM se apresenta como “um outro FEM”, ou seja, um outro evento com a mesma receita, cujo propósito é atrair público e mídia, porém com temas diversos. Ótimo para a indústria de eventos, a rede hoteleira e para a economia local. O governador compensa, desta maneira, a perda da fábrica da Ford para a Bahia. Só é preciso avisar a alguns brutamontes dados a quebra-quebras que é preciso refrear os instintos para não prejudicar o “show”.

O evento de Porto Alegre merece apoio, portanto, como qualquer festival ou convenção. Fará bem para a cidade e para o país se criarmos aí uma atração turística internacional, como Davos, independente das conotações políticas. Some-se aos atrativos do evento o fato de que irá oferecer um canal de expressão para muitos que iam fazer baderna em Davos, o que não é pouca gente. Há, todavia, uma pequena e importante armadilha nesta equação. Vivemos numa cultura onde o espetáculo prevalece sobre a substância, de tal sorte que protestos regados a gás lacrimogêneo alcançam muito mais espaço na mídia do que áridas conferências propositivas com centenas de assuntos e comitês. O FSM terá mais de 400 “oficinas” discutindo temas que vão da globalização à produção social da loucura, passando pelo consumo ético, transgênicos, gênero, solidariedade, microcrédito, moedas sociais, os mais diversos temas ambientais e a resistência armada ao neoliberalismo.

Não é de se descartar a hipótese de que muitos dos condutores destas seções, em Porto Alegre ou em Davos, prefiram permanecer no sereno, brigando com a polícia, para alcançar os holofotes pelo caminho mais curto e para não se sentirem aprisionados em uma discussão a sério das suas propostas por um mundo melhor. É o espetáculo que importa afinal, e por isso mesmo os dois fóruns inimigos vão até se falar: George Soros contra o MST em  “webcasting” para todo o planeta, numa batalha por um mundo melhor. Quem poderia de perder este evento, a primeira dentre várias “lutas do século”, como tivemos no boxe? E o resultado, também como no boxe, deve ser meio combinado, a fim de alcançar o máximo de efetividade para ambos os lados.