FSP, 27.08.03

EXPECTATIVA

Paul Volcker diz que, se o Brasil puder abrir mão de um programa do Fundo, será um sinal de estabilidade

Ex-Fed sugere que país deixe "abrigo" do FMI

JOSÉ ALAN DIAS
DA REPORTAGEM LOCAL

Paul Volcker, ex-presidente do Fed, o Banco Central dos EUA, afirmou ontem esperar o dia em que o Brasil ""deixará o abrigo psicológico do FMI". E, embora tenha dito que o país se encontra distante de uma sensação ""enraizada" de crescimento e estabilidade, disse que a economia parece ter entrado em um ciclo benéfico.
"O Brasil tem condições de criar um desenvolvimento sustentado, sem cometer os mesmos erros do passado", disse Volcker. "Essa oportunidade não vai durar para sempre. É necessário dar continuidade a esforços passados, mas também evitar erros", completou o ex-presidente do Fed.
Ele próprio se encarregaria de apontar o que seria o maior dos erros: não manter as políticas fiscais restritas -ou seja, sugeriu que o país siga com superávits primários e controle de gastos públicos. "Uma forte disciplina fiscal é essencial para afastar pressões do mercado e inflação. Facilita a queda das taxas de juros e o caminho para expansão da economia."
Disciplina fiscal que serviria de mote para Volcker comentar as relações do Brasil com o FMI.
"Espero ver o dia em que o país deixe o abrigo psicológico de um programa de crédito do Fundo. [Isso] depende de políticas fiscais fortes. Seria um sinal de que o país está preparado para seguir em seu caminho de estabilidade", afirmou o ex-presidente do Fed, que se negou a dizer se era necessário ao governo Lula renovar o atual acordo, que vence no final do ano.
Aproveitou para fazer elogios à atual gestão. "É um alívio saber que o novo governo sabe o que fazer. Os esforços para manutenção da estabilidade foram aumentados, o país conseguiu superávit primário maior do que o acertado com o FMI [a meta era de 4,25%, mas no primeiro semestre o superávit ficou em 5,41%], a inflação caiu e o BC reduziu os juros mais do que o previsto, sem que colocasse em dúvida a estabilidade."
Os comentários de Volcker foram feitos em um evento do Banco Pactual, no qual participaram o presidente do BC, Henrique Meirelles, seu antecessor direto, Armínio Fraga, e o presidente do BC do México, Guillermo Ortíz.
Volcker presidiu o Fed entre 1979 e 1987. E indiretamente contribuiu para uma das crises da economia brasileira. Foi sob sua gestão que os juros dispararam nos EUA (passando da média de 3,5% para 10% ao ano) a fim de conter as pressões inflacionárias no país. A alta dos juros no mercado internacional precipitou a crise das dívidas externas nos países latino-americanos, que ""quebrou" o México em 1982 e atingiu em seguida o Brasil.
Na abertura do encontro, o discurso do presidente do BC brasileiro estava em sintonia com o de Volcker. Meirelles disse que o governo mantém meta de superávit primário de 4,25% para 2003 e para os anos seguintes. Fraga defendeu que "política monetária só funciona bem em ambientes com condições fiscais boas".