Veja, 09.07.03

Nove anos do Real

 

O Real completou nove anos, agora sob nova administração. Pouca gente atinou que, comparado aos oito padrões monetários que o Brasil teve desde 1942, o Real é a moeda mais bem comportada que o Brasil já teve: acumulou 155% de inflação em sua existência, apenas 0,88% mensais em média.

O Cruzeiro foi instituído em 1942 e abolido em 1967, e durante seus 292 meses de existência acumulou pouco mais de 31 mil por cento de inflação, ou seja, uma média mensal de 1,99%. O Cruzeiro Novo, que lhe sucedeu, era um padrão transitório, um expediente para se cortar zeros. Durou 40 meses e a inflação mensal média durante sua vigência foi de 1,61%. Em maio de 1970 as cédulas de cruzeiros “velhos”, dotadas de um carimbo dentro de um círculo, foram substituídas por cédulas inteiramente novas desenhadas por Aloisio Magalhães.

Mas como a inflação não recrudesceu logo foram emitidas cédulas de denominações maiores: uma de Cr$ 500, tendo como motivo “figuras representativas da formação étnica brasileira”, trazendo um rosto por demais semelhante ao do mais célebre dos canastrões americanos, o ator Victor Mature. Em 1978 entrou em circulação a nota de Cr$ 1.000,00, o popular “Barão”.

Neste nova fase de sua existência (1970-1986) o Cruzeiro acumulou cerca de 206 mil por cento de inflação, ou 4,1% mensais em média ao longo de seus 190 meses de vida. Ironicamente, a última cédula emitida - a de Cr$ 100.000,00 - trazia a figura de JK: quem mais poderia ser o patrono desta era do desenvolvimentismo inflacionista?

O Plano Cruzado novamente cortou três zeros da moeda e tascou carimbos tanto em JK, quanto em Oswaldo Cruz e também em Rui Barbosa. Villa-Lobos, Machado de Assis, Portinari e Carlos Chagas foram homenageados em novas cédulas sem carimbos. O Cruzado durou 35 meses, nos quais acumulou uma inflação de 5.700% ou 12,3% mensais em média.

O Cruzado foi substituído pelo Cruzado Novo, com outro corte de três zeros, no âmbito do chamado Plano Verão. Rui Barbosa, que já circulava sem carimbo, como Cz$ 1000,00 ganhou um segundo carimbo, agora triangular, o mesmo dado a Portinari e Carlos Chagas. Desta vez Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles a Augusto Ruschi foram homenageados em novas cédulas, e a de NCz$ 200,00 apareceu com a efígie da República (era 1889, o primeiro centenário) que depois seria a marca registrada das cédulas do Real. O Cruzado Novo durou 15 meses com 5.930% de inflação, ou 31,4% mensais em média!

Em seqüência, o governo Collor reinventou o Cruzeiro,  e nesta nova encarnação durou 41 meses e acumulando 118 mil por cento de inflação, ou 18,8% mensais em média. Drummond, Cecília Meirelles, Ruschi e a República ganharam carimbos retangulares. Rondon, Carlos Gomes, Vital Brasil, Câmara Cascudo e Mário de Andrade foram homenageados em novas cédulas. Nesta ocasião as famílias de nossos heróis nacionais se dividiam quanto a “homenagem”: algumas insistiam em que o herói fosse “eternizado” numa cédula, afinal, eram muitas as vagas que se abriam, e outras proibiam o governo de avacalhar a imagem de seu parente ilustre.

Em meados de 1993 mais uma vez se fez um corte de zeros, e o padrão monetário passou a se chamar Cruzeiro Real, que durou 11 meses, com  2.400% de inflação acumulada ou 34% mensais em média, a pior de todos. Cascudo e Mário de Andrade ganharam carimbos redondos, e Anísio Teixeira ganhou uma cédula nova, a última em que apareceu um brasileiro ilustre. O BC, nesta altura, já começara a usar motivos regionais a fim de evitar problemas com o excesso de candidaturas a heróis; as cédulas do Real trouxeram a efígie da República e animais variados no reverso.

Bem, o Real pôs fim a este festival de humilhação dos símbolos nacionais, e o fato mais marcante a assinalar em seu nono aniversário é que passou o tempo de remoer as polêmicas que cercaram o seu nascimento, e que a nossa moeda está muito bem cuidada. Só agora talvez seja possível dizer que o Real deixou de pertencer a um partido e a um presidente, e passou, finalmente, a ser de todos nós.