Veja, 18.12.02

O pior emprego do mundo

 

As posses festivas, com ares de entrega de prêmio, merecendo destaque na imprensa, tudo isso pode dar uma impressão errada aos novos ministros, secretários e dirigentes de empresas públicas. Terminadas as homenagens verifica-se que as condições de trabalho são precárias, o salário ruim – com as exceções de praxe, difíceis de explicar – e a carga de trabalho massacrante.

Quem passou pelo serviço público sabe que é mínimo o tempo e o desprendimento para o sujeito pensar em novas e criativas maneiras de reinventar o Brasil. A rotina compõe-se de incêndios e desastres. Joga-se na retranca a maior parte do tempo, e quando se tem a iniciativa, nunca é possível agradar de forma unânime. De vinte decisões diárias, 18 são respostas negativas por que não há dinheiro. O alto funcionário público, normalmente, coleciona desafetos em razão do contingente de descontentes e desatendidos. Se ele é popular, alguma coisa está errada.

De muitas maneiras, o emprego de alto funcionário público é um sacerdócio, porém pior, pois é exercido sob os olhares atentos da imprensa. O cidadão comum, tornado autoridade, transforma-se, do dia para a noite, numa espécie de âncora de noticiário. Não deve gaguejar, improvisar, nem correr riscos em temas polêmicos. Não pode mais andar sem camisa no calçadão, dançar nas festas, tomar umas e outras, xingar o motorista do carro que lhe dá uma fechada, e escapar dos chatos alugadores nos aeroportos. Cedo se aprende que tudo na pessoa pública é deliberado, e que sua identidade é totalmente artificial e preparada para os fotógrafos. Não é falsidade, mas precaução. A patrulha é imensa e impiedosa. O sujeito definitivamente não pode tomar um gole de um Borgonha de 5 mil dólares, oferecido por um amigo. Receber presentes, com efeito, está a um passo da vilania: qual o valor máximo a partir do qual entramos no terreno da corrupção?

Muitas estatais reúnem suas diretorias, no fim do ano, para estabelecer o valor máximo de um presente de Natal. Já vi casos em que era permitida a garrafa de whisky, mas não a de 12 anos, presente que teria de ser devolvido. Se esta fosse a distância entre a corrupção e a virtude, dizia um burocrata amigo, estávamos perdidos.

O alto funcionário não pode chegar em Brasília com uma mala Louis Vuitton, pois sempre haverá um engraçadinho a dizer que o adereço é incompatível com a função, nem ficar parado na rua com a mala pois os fotógrafos vão trazer uma criança carente para posar a seu lado de mão estendida. Como reagir? Doar a mala para o Comunidade Solidária, aliás para o Fome Zero? Fingir-se indiferente ou indignado?

São tantas as armadilhas, que o sujeito deixa de pensar o que é razoável, no vestir, usar e falar, mas no que o pior tipo de gente vai dizer. A malícia é uma indústria colossal, tal como revelada pelo consumo de notinhas venenosas. A vítima se acostuma a ler apenas os piores veículos exclusivamente para ver o tipo de lama que lhe atiram a cada dia. É difícil aferir o tempo desperdiçado na defesa dessas ferroadas. A irritação acaba instigando as pessoas a atacar de volta, sempre imaginando o beneficiado pela intriga, e para o regozijo da indústria da fofoca.

O alto funcionário vai contrariar interesses, e parlamentares representam interesses, e por conta disso vão desancar o funcionário da tribuna, ou vão requerer CPIs ou auditorias do Tribunal de Contas. O alto funcionário vai ser processado, não uma mas várias vezes, pois infelizmente o Judiciário não consegue filtrar a litigância de má fé, vale dizer, as ações de motivação unicamente política, ou com o propósito de denegrir. O funcionário logo aprende a sentir-se processado continuamente, e compulsivamente guarda tudo, cópias de todos os papéis, despachos, pareceres, notas, e não diz nada, nem assina coisa alguma sem consultar um procurador.

Para quem genuinamente ama o Brasil, e quer melhorar as coisas, tudo isso acaba perdendo importância. Mas o fato é que, como país, não devíamos tratar tão mal as pessoas nas funções públicas.