VEJA – 06-11-2002

Alternância no Poder

 

É enorme a expectativa sobre os novos rumos da economia, mas está difícil de antever pois a primazia está na política, onde tudo parece diferente do que sempre foi. A vitória de Lula, bem como o espetáculo de educação política proporcionado pelo governo que se retira, parecem sugerir que amadurecemos uns cem anos nessas últimas semanas. Tudo é visto com a naturalidade de quem sempre viveu numa veterana democracia européia, embora saibamos que estamos desbravando território inteiramente novo. A esquerda nunca esteve no poder.

Com efeito, na política como na economia, mudanças atmosféricas estão ocorrendo com extraordinária velocidade, tornando muito difícil para os atores sociais exibir “coerência”. Estas eleições estiveram repletas de alianças estranhas e inimigos reconciliados, além de notáveis revisões de conceitos anteriores. Ninguém é mais o que era, ou é o que parece ser. O Lula de hoje não é mais o de 1989, e por isso mesmo venceu Serra, que se parece com o Mário Covas de 1989. Aliás, se estivesse vivo, Covas teria sido um contendor muito mais forte para Lula pois, como Lula, mudou muito desde 1989.

O mundo é muito complexo mesmo, e os políticos têm que estar em constante movimento, ainda que todos na mesma direção. Circunstâncias e agendas estão em continua transformação, mas dentro de pressupostos institucionais muito bem estabelecidos: desapareceram as alternativas fora da economia de mercado e da democracia representativa. Por isso mesmo eu não acho que vai haver “mudança de modelo econômico” pois o Presidente, este como qualquer outro, terá de encontrar termos de convivência com o Mercado, um ator obrigatório no jogo econômico, e com o Parlamento, a expressão institucional da Democracia em movimento.

Por isso, convém começar a despir o presidente eleito de dotes messiânicos, inclusive para o seu próprio bem. Não há dúvida que o presidente eleito tem ótimas intenções, mas não vamos esquecer que isto também existiu em todos os governos anteriores, e seria irrealista aceitar que tudo o que foi feito até aqui, na economia e na área social, foi inteiramente errado, e que todos os governantes anteriores foram incompetentes, ou era gente mal intencionada a serviço de interesses escusos. E que apenas agora, com o PT, teremos competência, probidade e de prioridades corretas.

Como esta hipótese é falsa, ainda que repetida por muitos áulicos do PT, o encontro com a realidade será questão de tempo. Faria bem o presidente eleito em reconhecer os méritos daqueles que o precederam, principalmente por que não foram poucos, mas também em razão de seus próprios interesses, uma vez que serve como “hedge” contra a possibilidade (altíssima) dele próprio não atingir os níveis (inatingíveis) de excelência que impôs a seus predecessores.

O presidente que se retira chama a atenção para outro paradoxo interessante no âmbito do jogo parlamentar. O governo que termina pode, com toda razão, queixar-se da atuação parlamentar do PT, que sempre foi destrutiva e contrária a tudo que vinha do Planalto, pouco importando se fizesse bem ao Brasil.

Agora que é governo, todavia, é fácil ver que o PT não apenas terá de propor temas e projetos contra os quais lutou, como também se verá na posição de vetar temas e projetos pelos quais trabalhou. De forma simétrica, a futura Oposição, integrada por porções do PSDB e da antiga base governista, ficará tentada a comportar-se como o PT, adotando a lógica de “jamais rechear a empada do governo” e assim será contrário a temas e projetos que propôs ou apoiou, e proporá temas e projetos que vetou na encarnação anterior. O próprio presidente que se retira teve a grandeza de propor que o PSDB não repita a “ação destrutiva do PT” no Congresso. Uma ironia finíssima, já que não vai ser possível atendê-lo, e ele sabe disso.

Enfim, está oficialmente inaugurada a tão esperada alternância no poder.