Veja

22.05.2002

O olhar distante

 

Os concursos internacionais, no esporte ou na economia, são sempre empolgantes e freqüentemente exibem padrões, que refletem competências específicas. O Brasil é o país do futebol (assim esperamos), a Venezuela trabalha bem os concursos de beleza, mas no terreno das comparações de indicadores econômicos, onde deveria haver um tanto mais de ciência, parece haver um hiato entre percepção e realidade.

Com efeito, nestes “rankings” o Brasil aparece muito mal, tanto que cabe refletir sobre os preconceitos a turvar este olhar estrangeiro sobre o Brasil. O fenômeno, na verdade, não é novo. A breve resenha feita abaixo pode lembrar uma coletânea de insultos e imprecações dirigidas contra o Brasil organizada por Diego Mainardi a partir de relatos de viajantes estrangeiros desde o século XVI. Nestes, o ódio é escrachado e genuíno, como se espera de todo legítimo detrator no exercício de seus direitos. Nos “rankings” abaixo estes sentimentos não deveriam existir.

A Fundação Heritage, é uma das mais influentes organizações conservadoras dos Estados Unidos. Anualmente produz um “ranking” de países – o “Índice de Liberdade Econômica” (ILE) – organizados  conforme indicadores de liberdade para se fazer negócios, na presunção de que por aí se explica “por que algumas nações florescem e outras ficam para trás”. Na edição para 2002, organizada em conjunto com o Wall Street Journal, o Brasil aparece muito mal colocado, em 79o lugar, empatado o Gabão, Madagascar e o Paraguai, em 155 países. Honk Kong está em primeiro, o Iraque em último.

A Transparência Internacional produz anualmente um  “Índice de Corrupção Percebida” (ICP), cuja edição para 2001 nos coloca em um quase ultrajante 46o lugar, entre o Peru e a Bulgária: de zero a dez, nota 4. A Finlândia está em primeiro, o seja, é o país mais “limpo”, e Bangla Desh o mais corrupto, seguido de perto pela Nigéria. O nível global de corrupção sofreu significativa elevação em 2001, informa o relatório.

A competitividade é objeto de toda uma família de índices. O Fôrum Econômico Mundial, o de Davos, patrocina a confecção do ICG – Índice de Competitividade para o Crescimento - privilegiando fatores macroeconômicos, e coordenado pelo professor Jeffrey Sachs, e também do ICC - Índice de Competitividade Corrente – a partir de fatores microeconômicos e criado pelo professor Michael Porter. No ICG estamos num modestíssimo 44o lugar, e no ICC em 30o, dentre entre 75 países. A Finlândia está em primeiro em ambos, e em último estão o Zimbagwe e a Bolívia.

No plano do “risco soberano”, ou da capacidade do país cumprir seus compromissos, as avaliações das agências especializadas - Moody’s, Standard & Poors, Fitch e mesmo a SR Rating, que é brasileira - nos dão uma classificação que eqüivale, numa escala de zero a dez, a algo entre 3,5 e 4,0.

A revista Euromoney, semestralmente, transforma diversos indicadores de risco em uma nota de zero a cem, e agora em março de 2002 ganhamos um 49,5, o que nos coloca em 69o lugar, entre El Salvador e Colômbia, num universo de 184 países. Em primeiro está Luxemburgo, em último há empate entre Somália e Serra Leoa.

Mas a despeito de toda essa ignomínia atirada contra nós,  existe um índice que serve para nos lavar a alma: uma das maiores empresas internacionais de consultoria, a A. T. Kearney, constrói periodicamente um “Índice de Confiança para o Investimento Direto” (ICID) que consiste em perguntar a 1000 dirigentes das maiores empresas do mundo qual a sua disposição de investir e onde. Na edição de 2001, o Brasil aparece em terceiro lugar, isso mesmo, terceiro lugar, tendo, em 2001, ultrapassado a Inglaterra. Perdemos apenas para os Estados Unidos e a China.

Curioso esse olhar estrangeiro sobre o Brasil. Falta-nos liberdade, honestidade, competitividade, somos uma terra cheia de perigos, mas ainda assim estamos entre os três melhores lugares do mundo para o investimento produtivo. Talvez haja, no olhar distante, um problema de miopia. Ou quem sabe premonição.