Veja

24.04.2002

Eu quero ser Juscelino Kubitschek

 

Ouvindo os nossos presidenciáveis falando de “política industrial”, “substituição de importações”, tudo em função de perigos vindos do exterior, e da necessidade de grandes investimentos públicos, a impressão é a de que todos repetem uma fórmula, um paradigma de político vitorioso: JK, que governou o país de 1956 a 1961.

Um extraordinário pequeno livro “Feliz 1958 – O ano que não devia terminar”, de Joaquim Ferreira dos Santos, oferece um lindo retrato desses anos dourados. JK empenhava-se numa grande obra, Brasília, com o propósito de “liquidar a sonolência de uma sociedade que parasitava em torno das praias, como caranguejos ou como se quisesse ir embora”. Do déficit público só uns chatos falavam, e já se brigava com o FMI, para o deleite das massas. A seleção brasileira ganhou nossa primeira Copa do Mundo e o futuro era brilhante, pois Pelé tinha apenas 17 anos.

Eram tempos da bossa nova, mas também das chanchadas e macacas de auditório. Nas praias brilhavam os maiôs Catalina, mas também as bóias de pneu. As crianças brincavam de bambolê e com a espada do Falcão Negro, cujo “long-play” vendia como os vídeo games de hoje. Os carros americanos importados na farra do pós-guerra tinham virado táxis pretos caindo aos pedaços e nas ruas circulavam DKW-Vemags, Romi-Isetas e fuscas feitos no Brasil. A inflação estava começando a doer, a pobreza era como hoje, mas dizem que o crime era menor. O Progresso criava tensões mas éramos uma país de bom humor, que estava sendo inundado pelo capital estrangeiro.

No dia 12 de setembro de 2002 completa-se o centenário de JK, e sua fórmula continua dominante. Nenhum político parece capaz de entrar numa eleição sem estar fantasiado de JK. Todos os presidentes que se seguiram adotaram o ideal nacionalista da auto-suficiência, expresso em algum Plano Nacional de Desenvolvimento, cheio de “ativismo estatal esclarecido”, e de grandes investimentos públicos de “alto interesse estratégico ou social”, do General Geisel a João Goulart, praticamente sem exceção.

O fenômeno se parece com o que se passa no filme “Quero ser John Malkovich”, de Spike Jonze, onde um especialista em manipulação de marionetes descobre em um edifício de estranha arquitetura um portal que leva diretamente ao cérebro de John Malkovich, um dos mais admirados atores americanos. O portal se torna um sucesso de bilheteria, filas enormes se formam com pessoas querendo ser John Malkovich, US$ 200 por 15 minutos.

Sempre me ocorre, chegando em Brasília e transitando pelos longos corredores do aeroporto, ou pelos enormes túneis do Congresso Nacional, que as pessoas estão querendo penetrar no cérebro de Juscelino Kubitschek. Alguns por 15 minutos, outros com a intenção de não sair nunca mais. Milhares de políticos, no figurino do filme, se tornaram “hospedeiros” de JK.

Mas o fato é que o paradigma parece ter mudado, como o próprio país, depois que começamos a ter eleições diretas de verdade, em 1989, e de a inflação ter ultrapassado 80% mensais. Em todas as três eleições que tivemos desde então ganharam candidatos com programas contrários à fórmula de JK. Collor e mais claramente FHC propunham programas ortodoxos de combate a inflação, baseados em corte de gasto, aumento de imposto, privatização, abertura, desregulamentação, reformas de cunho liberal e anti-estatizante e com o apoio do FMI. Em comum com JK apenas a atitude amistosa diante do investimento estrangeiro direto.

Poucos atinaram para a importância desta mensagem enviada por sua excelência o eleitor: que não quer mais saber de inflação, de governos “realizadores” mas despreocupados em pagar as contas que ficam. Aliás, o povo disse bem claro que não gosta muito de governo em geral, de impostos e de políticos em particular, e votou muito claramente em quem propôs, mesmo sem o dizer, reduzir o tamanho ou a importância dessas entidades. A fórmula mudou, mas ninguém tem coragem de apresentar uma nova.