Veja, Edição 1847 . 31 de março de 2004

A economia global
e o Brasil

"Diferentemente do que se dizia no passado
sobre economias pejorativamente chamadas
de "periféricas", condenadas à mediocridade,
esses países estão ricos ou enriquecendo velozmente"

Uma fotografia simplificada da economia global, vista bem lá de cima, mostraria um sistema de trocas entre grandes blocos, no qual se destacam uma economia dita "central", os Estados Unidos, e duas áreas monetárias periféricas, que vamos chamar de "Oriente" e "Ocidente". Diferentemente do que se dizia no passado sobre economias pejorativamente chamadas de "periféricas", condenadas à mediocridade, os países nesses grupos estão ricos ou enriquecendo velozmente.


Parados estão os países "desintegrados", ou isolados da economia global, geralmente porque preferem assim.

A América Latina, junto com Canadá, Austrália e Nova Zelândia, faz parte da "periferia ocidental", cujo principal componente, todavia, é a Europa, aí incluídos a Rússia e seus antigos satélites.

Esse bloco tem superávit com o "Centro" e mantém taxas de câmbio flexíveis com relação ao dólar. Os "ocidentais", titulares dos dólares excedentes nessa região, e que o governo não compra (por isso mesmo o câmbio flutua), tendem a usá-los fazendo investimentos nos EUA, principalmente em ações e títulos de empresas privadas.

A Ásia, que também tem superávit com o "Centro", funciona um pouco diferente: lá o câmbio é controlado, bem como a conta de capitais, e o governo absorve os dólares que sobram, acumulando reservas que usa para comprar títulos do Tesouro americano.

Ou seja, o "Centro" compra mercadorias da "periferia asiática" e paga com instrumentos de sua própria dívida, que se vai acumulando nos bancos centrais da Ásia; já as mercadorias e ativos (empresas) que compra da "periferia ocidental" são pagos, tipicamente, com o produto da venda de ativos privados.

Não é um mundo tão complicado, tampouco parece instável como o "sistema" que ruiu em 1971, quando o dólar, quem diria, sofreu um ataque especulativo e foi forçado a flutuar. Mas estamos vivendo algumas tensões.

Tudo começou com um novo governo republicano no "Centro", que resolveu praticar políticas expansionistas (fiscal especialmente) e com isso ampliou seu déficit em conta corrente a partir de 2001 para algo na faixa de 400 bilhões de dólares anuais, um recorde.

Metade desse "rombo" tem sido absorvida em aumentos de reservas na Ásia sem maiores problemas e sem alteração substancial nas taxas de câmbio entre as várias moedas da região e o dólar. Todas, com exceção do iene, continuam fortemente subvalorizadas, o que tende a se corrigir com o tempo.

No "Ocidente", que absorve a outra metade do déficit americano, a dinâmica é diversa: os dólares do superávit acabam vendidos para quem se dispuser a adquirir ativos nos EUA, que vão ficando baratos por força do enfraquecimento do dólar, o que por sua vez tende a reduzir o déficit americano, mantidos os juros nos EUA. Nessa toada, as "periferias", a "ocidental" em particular, vão se integrando ao "Centro".

Assim tem sido na Europa, onde o euro se valoriza e a comunidade aumenta, e, em boa medida, também no Brasil, que está diante da Alca.

Aqui há os que acham que deveríamos seguir um figurino "oriental", com mais desvalorização cambial, controles, poupança forçada, investimento público e afastamento do "Ocidente". É curioso: o mais perto que chegamos disso foi durante o "regime de exceção" comandado pelo general Geisel. Muita gente de esquerda, por estranho que pareça, sente saudade.

O fato é que hoje nos parecemos mais com a Espanha que com a Coréia ou a China. Como o restante da "periferia ocidental", estamos sentindo uma pressão para o fortalecimento do real, porém duas oitavas abaixo do que se observa com o euro, em parte porque a economia doméstica não anda muito vibrante, em parte porque o noticiário político está vibrante demais.

Mas, se essas vibrações se equilibrarem, a tendência é retomar um caminho de progressão semelhante ao da Espanha. Não temos as diretrizes nem os imperativos políticos criados pela unificação européia, mas sabemos bem quais são as reformas necessárias para a "convergência". A nos impedir de aprová-las só existe nossa incapacidade de enxergar, e aproveitar, a oportunidade.