VEJA, edição 1875 . 13 de outubro de 2004

O feijão e o sonho

"Nada é capaz de conter os mercados financeiros quando eles querem ser felizes"

As reuniões anuais dos acionistas do FMI e do Banco Mundial tornaram-se o grande evento, a meca do mundo financeiro globalizado. Essa posição (na indústria de eventos) é disputada pelo Fórum de Davos, que, tenha-se claro, é um evento comercial, muito mais apelativo à vaidade das grandes corporações. Paga-se para estar dentro, e aí, sim, tem-se a mercantilização do debate sobre governança global ou sua transformação em espetáculo. Usando a imagem caracteristicamente marxista segundo a qual o capital é como se fosse uma pessoa, tal sua incontornável lógica de autovalorização, é nos encontros do FMI que ele (o capital) se senta (com seus reguladores) e assina cheques. Em Davos, o capital vai esquiar.

Em Washington, como em Davos, a mística dos encontros não está propriamente nas autoridades, mas no gigantesco festival de reuniões paralelas, medidas em bilhões de dólares, entre banqueiros, investidores, economistas, jornalistas, empresas e interessados em assuntos de finanças internacionais. Deve ser claro, por outro lado, que esse "público" é extremamente vulnerável às crescentemente violentas manifestações antiglobalização, que inclusive arruinaram algumas reuniões, como a do FMI em Praga, em 2000.

É forte a imagem dos agentes do capital escondendo-se de multidões enfurecidas, deixando a impressão de que "a voz das ruas" desarrumou as finanças mundiais ao firmar sua posição contra a globalização, a pobreza, a injustiça social, a destruição do meio ambiente e o Consenso de Washington.

O fato é que depois dos atentados engendrados pela Al Qaeda, ocorridos duas semanas antes do início da reunião do FMI de 2001 em Washington, todas as mudanças que vinham ocorrendo em resposta às manifestações, certas ou erradas, foram estupidamente aceleradas. E a "voz das ruas" achou por bem silenciar. A reunião de 2001 praticamente não aconteceu, e Davos mudou-se para Nova York, numa combinação de homenagem e fracasso comercial.

No ano seguinte, 2002, em Washington, parecia claro que a Grande Feira tinha mudado sua química. Oprimido não tanto pelas multidões, mas pelos pesados esquemas de segurança, o encontro deixou-se dominar pelo "politicamente correto". Em paralelo, todavia, os mercados e a alta finança internacional não tiveram nenhuma correção em fugir do Brasil com medo da vitória do PT e de que Lula fosse um outro Fidel.

No encontro de 2003, lá longe em Dubai, já havia um misto de alívio e desconforto ao ver que o PT não era o de antigamente, mas foi apenas em 2004 que o Brasil experimentou a verdadeira glória. Por um lado, nos apresentamos como o melhor dos clientes do FMI, pois praticamos políticas ortodoxas e fazemos reformas que antigamente eram descritas como "neoliberais" (designação que vem caindo em desuso, à semelhança do que ocorreu com o adjetivo "pequeno-burguês", outrora aplicado a pessoas que depois, pensando melhor, não eram tão ruins assim). Por outro lado, nosso presidente se apossou do "politicamente correto", por absoluto merecimento, e não é outra coisa o que o Banco Mundial gostaria de encarnar. Temos, portanto, as duas metades da coisa, o feijão e o sonho, uma fórmula que FHC levou a Washington com igual sucesso em 1996.

São tempos curiosos os de agora: a reunião é do capital, mas tanto se fala em investimento "socialmente responsável", defesa do meio ambiente, governança corporativa e combate à fome, que o espectador inocente pode ficar com a impressão de que ganhar dinheiro não tem mais a menor importância.

O fato é que a febre do "politicamente correto", combinada com o profundo sentimento de culpa pelos maus-tratos ao Brasil em 2002, criou um pedestal maravilhoso para nós. Passamos à condição de exemplo de engenho ao combinar racionalidade macroeconômica e preocupação social, pouco importa se de forma planejada ou acidental. Grandes reputações podem ser construídas com um silêncio inteligente, ou com uma paralisia aparentemente deliberada e refletida. O fato é que nada é capaz de conter os mercados financeiros quando eles querem ser felizes.