Revista TRESIVAN, no. 163 /2002

Carta ao leitor

Contadores e auditores na guilhotina

Antoninho Marmo Trevisan

 

Certa feita, um ex-presidente do Banco Central acusou os contabilistas de serem os responsáveis pela inflação no Brasil. Desconhecendo a essência e a aplicação nos negócios do princípio das partidas dobradas - para um débito deverá existir um crédito correspondente ou, de outra forma, para uma aplicação de recurso deverá existir uma fonte - dizia ele que o tal princípio contábil levava "ingênuos" deputados a votarem um orçamento público que acreditavam prudente. E mais, induzia a mídia a crer que não se operava com déficits e que o orçamento era equilibrado.

Não existe, porém, a hipótese de que alguém concretize um negócio gastando o que não tem. O que varia é a fonte do recurso: é próprio, financiado ou, no caso do governo, veio do bolso do contribuinte?

Tudo porque o mestre Paciolo, frade veneziano, matemático, detalhara há 500 anos o princípio da igualdade contábil. Um miraculoso tratado que permitiu aos navegantes fecharem negócios e atraírem sócios sem que a cada viagem tivessem que fundar uma empresa nova. Estava descoberta a forma de medir resultados em negócios que operassem continuamente! Tudo caminhou bem nesses mais de cinco séculos. A sociedade avançou, empresas democratizaram seu capital e acionistas encontraram um meio de participar do negócio sem estar todo dia na empresa, graças ao trabalho vigilante de auditores, que zelavam pela veracidade dos números, seguindo o valioso princípio de que para um débito deverá existir um crédito correspondente.

Mas o mundo ficou muito complicado. Formas de se obter fluxo de receitas financeiras foram se sofisticando. Com a nova economia vieram o dinheiro digital e os derivativos, o mercado de opções cresceu, acompanhado da sensação de que nada ou pouco poderia se transformar em muito.

Com isso, no vácuo da falência de grandes corporações, a contabilidade, que já havia sido responsabilizada pela inflação brasileira, passou também a ser acusada de instrumento para enganar acionistas! Precisamos, isto sim, de mais contadores e de muito, muito mais auditores, que levem a sério o que o mestre Luca Paciolo nos ensinou.