OESP, 08.02.07

Para onde vai nossa economia?

Alberto Tamer*

A pedido dos leitores, vamos mudar o tema desta coluna, que se concentra mais nas repercussões da economia internacional sobre o Brasil. A maioria dos e-mails desta semana refere-se ao que se pode esperar da economia brasileira neste ano. Vai dar certo, vai dar errado?

Como simples jornalista, não ousamos nem sequer tentar responder a estas perguntas vitais e inquietantes das quais depende o futuro de cada um. Fomos ouvir aqueles economistas que mais conhecem e, principalmente, viveram o Brasil fora e dentro do governo. Foram pelo menos dez. Como esperávamos, a maioria preferiu permanecer no anonimato. Quando perguntei por que, tinham receio de errar?

ANONIMATO É LIBERDADE

Não”, respondeu-me um deles, que considero de longe o mais bem preparado. Só não quero criar constrangimentos ou inimizades com colegas. Eles sabem o que eu penso, muitos discordam, outros concordam, discutimos muito, comparamos exemplos aqui e lá fora, mas nenhum iria gostar e poderia até mesmo ofender-se.

Respeito. E até prefiro o anonimato, pois isso torna mais autêntico, sincero e livre o depoimento. Quase todos os economistas com os quais conversei informaram-me que já manifestaram suas, sugestões e críticas ao governo. Dois foram muito francos: eles, os que estão na equipe econômica, nos ouviram, entenderam, mas sabem que têm pouco poder. A palavra final é do setor político, do presidente e, mais grave, alguns assessores completamente despreparados. Um até brincou:

Se os políticos tivessem ouvido Keynes, que previu, discutiu e até escreveu, logo após a 1ª Guerra, que, se não fossem as condições impostas à Alemanha, não teria havido a 2ª Guerra.” Na verdade, disse esse economista, Keynes chegou mesmo a afirmar que esta 2ª Guerra era inevitável. E foi...

Mas para que toda essa introdução, deve estar perguntando o leitor.

Porque um, já escaldado, não só falou, mas escreveu um artigo na revista Época de 6 de dezembro dizendo tudo o que pensa. E tenho impressão de que ele acertou. Foi Gustavo Franco, do qual a maioria dos leitores discorda, mas eu não, pois ele fez exatamente o que está sendo feito hoje: o “milagre”passageiro de conter a inflação via câmbio. Seu único erro - eu cheguei a dizer-lhe isso - foi não ter saído quando viu que tudo o mais, o essencial para tornar sustentável a queda da inflação Fernando Henrique não fez e o sr. Pedro Malan aceitou e... ficou no governo até o fim. Agora, vem pregar as reformas... Ora, ora...

COMO ZERAR DÉFICIT SEM MAIS IMPOSTO

Mas o que não fez tudo: tudo; não se fez, na verdade, nada, como as reformas estrutural, cambial, previdenciária (“Ninguém mexe na Previdência”, proclamou o presidente Lula pensando que estava defendendo os pobres velhinhos, esquecendo-se - será? - dos funcionários públicos), não se fez um verdadeiro ajuste fiscal, enfim, tudo isso que está aí parado e os leitores estão cansados de saber e os economistas que querem aparecer repetem sem parar. Falam, viram as costas e vão cuidar do seu ganha-pão.

Faltam estadistas, faltam Greenspans, faltam Bernankes,um Robert Rubin. Uma vez, ele afirmou que “a economia americana estava crescendo e havia criado 11 milhões de empregos em 8 anos (no governo Clinton) sem aumentar os impostos, porque as empresas estavam tendo mais lucros e pagando mais impostos, bem utilizados”. E esse mesmo Rubin, sem mágica nenhuma, acreditem, zerou, sim, o hoje monumental déficit público americano!

NÃO DÁ PARA PIORAR...

Mas voltemos ao Gustavo Franco que, num truque cambial, acabou com a hiperinflação sem descambar para a recessão, como sempre aconteceu em outros países. No artigo revista Época, ele aponta três desafios, dos quais, por questão de espaço, destaco apenas o que ele chama de “a boa notícia”, certamente por ironia:

“O futuro da economia está na dependência de três conjuntos de políticas do governo, que vão fazer a diferença entre um desempenho brilhante e um medíocre. A boa notícia é que a conjuntura internacional é tão boa, e a herança benigna decorrente de muitos anos de políticas ortodoxas é tão sólida, que, mesmo que o governo faça escolhas erradas, a economia vai andar só um pouquinho pior que hoje.”

“A situação é tão boa que vai precisar um talento destrutivo de uma natureza verdadeiramente superior para conseguir estragar as nossas perspectivas. É certo que, em 2006, o petismo nos ensinou a não subestimar sua capacidade de tropeçar nas próprias pernas. Felizmente, até onde é possível ver, não há petismo na área econômica.”

E eu, precavido, penso: será que eles não voltam? Onde está a abertura econômica? Onde estão as medidas para atrair investimentos externos? Você, leitor, sabia que, apesar de termos reduzido drasticamente a dívida externa, a dívida líquida da União (interna e externa) em dezembro de 2006 era de (está sentado?) 75,05% do PIB, isto é, de toda a riqueza nacional? Você sabia que essa dívida líquida, interna e externa, entre 1994 e 2006, teve um crescimento real em relação ao PIB de (sente-se de novo!) 226,34%?

* E-mail: at@attglobal.net