Domingo, 22 de setembro de 2002

Estado de São Paulo  

 

 

 

 

A agenda que se perdeu

ASSESSORIA ECONÔMICA DOS CANDIDATOS DESPREZA PROPOSTAS DE 17 ECONOMISTAS

SUELY CALDAS

 

Acabou frustrada a tentativa de introduzir no debate da campanha eleitoral idéias contidas no documento A Agenda Perdida - uma sistematização de propostas para a economia até então dispersas em estudos, palestras e artigos de 17 economistas que se reuniram por iniciativa de José Alexandre Scheinkman. Até o candidato da Frente Trabalhista, Ciro Gomes, que convidou Scheinkman a integrar sua equipe, fez uma única, genérica e vaga menção ao documento, sem comentar seu conteúdo. Os demais candidatos nem isso. Seus assessores econômicos não demonstram interesse ao analisar o documento. E coube justamente à assessoria de Ciro Gomes a oposição mais virulenta às idéias ali contidas. Um desses assessores, Maurício Dias David, decretou o divórcio entre o programa de Ciro e a proposta de Scheinkman: "Não há a menor possibilidade de compatibilizar as duas propostas", sentenciou.

"Procurei pessoalmente Scheinkman no domingo em que ele terminava o texto e ficou muito claro que ele não queria conversa conosco", conta David.

José Alexandre Scheinkman está em Paris dando aulas, seus amigos desconhecem se ele voltou a conversar com Ciro Gomes depois da divulgação do documento, mas dificilmente a parceria vai sobreviver. Afinal, suas idéias foram rejeitadas, classificadas de "neoliberais" em forma de xingamento.

Professor nas universidades de Paris e Princeton (nos EUA), Scheinkman é conhecido e prestigiado no meio acadêmico de primeiro escalão, aqui e no exterior. Sua adesão à candidatura de Ciro Gomes surpreendeu e deixou muitos dos que o conhecem sem entender suas razões. "Se a intenção foi emprestar seu nome para Ciro conquistar a confiança do mercado, ele pode se dar mal", comentou um amigo comum. Não era esta a razão. Na verdade, Scheinkman e um grupo de economistas que com ele compartilham idéias e propostas para o Brasil não se sentiam representados por nenhum dos quatro candidatos à Presidência. Um deles - Marcos Lisboa, que com Scheinkman escreveu o texto final de A Agenda Perdida - conta que em julho último, Affonso Celso Pastore, Ricardo Paes de Barros e ele próprio combinaram realizar um seminário de debates de onde sairia um documento com propostas para retomar o crescimento econômico e reduzir as desigualdades sociais no próximo governo. Mas os três viajaram e o seminário não se realizou.

Quando Scheinkman procurou Marcos Lisboa, sua primeira intenção foi compor o que poderia vir a ser a equipe econômica de um eventual governo Ciro Gomes.

Encontrou resistências, mas concordou com sugestão de Lisboa de reunir o grupo e produzir um programa de governo a ser entregue a todos os candidatos e não apenas ao da Frente Trabalhista. Foi feito. Porém, seja por desinteresse, por divergências, por preconceito, ou porque a campanha está na reta final, o fato é que nenhum dos quatro assessores econômicos consultados por esta coluna concordou em levar A Agenda Perdida à discussão nos 15 dias que restam de campanha.

Deles, o porta-voz econômico do PT, Guido Mantega, foi o que revelou maior conhecimento do conteúdo do documento, mas discorda da maioria das propostas. Diverge de pontos fundamentais: Mantega defende a continuidade da Justiça do Trabalho; uma política industriaL com forte intervenção do Estado; quer manter gratuita a universidade pública; argumenta que não funciona a unificação dos orçamentos de programas sociais; o superávit comercial deve ser feito também com contração de importações; é contra a formação da Alca em 2005 e a favor de manter o Mercosul. Concorda só com a proposta para a lei de falências e concordatas e priorizar o investimento em tecnologia.

Embora só Gesner de Oliveira (José Serra) confesse não ter lido o documento, Mauricio Dias David (Ciro Gomes) e Tito Ryff (Garotinho) não conseguiram analisar nem os pontos principais. Genericamente, Ryff disse que são propostas velhas, que há muito estão na ordem do dia dos debates econômicos.

David comparou-o ao parto da montanha: "Esperava-se que de lá saísse um bicho enorme e saiu um ratinho esquálido." Não surpreende o desinteresse do assessor de Serra. Afinal, já era seu velho conhecido outro documento preparado por integrantes do grupo de Scheinkman, denominado Desenvolvimento com justiça social, adotado pelo PMDB e desprezado pelo grupo de Serra nas discussões sobre o programa de governo.

É lamentável que o trabalho deste grupo seja recebido com esse desdém pelos candidatos. Lá há propostas de políticas públicas que têm tudo para melhorar o desempenho da economia brasileira e reduzir a pobreza. Para o eleitor, certamente a introdução de idéias não presentes no debate são mais interessantes e úteis do que os xingamentos, traições, fofocas e baixarias a que temos assistido nesta campanha eleitoral.

 

Suely Caldas é jornalista E-mail: sucaldas@estado.com.br