Publicado em O Globo, 26 de outubro de 2006

A rendição dos tucanos

Carlos Alberto Sardenberg

            A mensagem que Geraldo Alckmin e os tucanos passaram a respeito da privatização ficou mais ou menos assim: ok, nós fizemos, mas prometemos nunca mais fazer.

            Ora, se é assim, as insinuações lançadas por Lula fazem sentido. Se os tucanos juram não privatizar mais nada, isso é uma confissão de que fizeram a coisa errada no passado. E se defendem as privatizações do passado, como acreditar que não farão mais no futuro?

            Assim, os tucanos ficaram sem argumento no momento mesmo em que se observa o triunfo das privatizações. Todos os setores privatizados estão bombando. Eis alguns exemplos, citados pela presidente da CSN, Maria Silvia Bastos Marques:

            . empresas siderúrgicas – prejuízo consolidado de US$ 260 milhões em 1992; lucro de U$ 4 bilhões em 2005.

            . Vale – investimento em 1997, US$ 400 milhões; em 2006,  US$ 4,6 bilhões; 11 mil funcionários em 1997; 44 mil empregos diretos neste ano.

            . Telecomunicações – investimentos de US$ 165 bilhões de 1996 até o ano passado.

            Acrescente-se: as melhores estradas do país são aquelas operadas por concessionárias privadas.

            Dirão: mas houve um apagão em 2001 e há dúvidas sobre o fornecimento de energia para os próximos anos.

            Não é culpa da privatização. O setor elétrico foi privatizado pela metade, ficou torto, está assim até hoje.

            De que ficaram com medo os tucanos?

            Do preço dos serviços públicos privatizados - tarifas de telefone e pedágios, por exemplo. Compara-se com o tempo das estatais, o que não faz o menor sentido. O uso do telefone era barato, quase de graça, mas só os ricos da elite podiam comprar a linha. Hoje, 60 milhões de celulares estão com as classes C, D e E, no sistema pré-pago, mais barato.

            Quanto às estradas, a questão é: o que você prefere, uma estrada de graça, mas intransitável, ou uma rodovia classe A, pedagiada?

Dizem mais, que as telefônicas são campeãs de reclamação nos Procons. Errado. Podem ser campeãs em números absolutos, mas quando se compara a quantidade de reclamações com o número de linhas em funcionamento, a relação é muito pequena, um atestado de eficiência.

E por que as telefônicas têm de ser eficientes no serviço e no preço? Porque há uma fortíssima competição.

Os tucanos também ficaram com medo da pergunta lançada por Lula: o que fizeram com os R$ 200 bilhões obtidos com as privatizações? A insinuação fica no ar: o dinheiro sumiu? Roubaram?

A resposta é simples, porém. Esse dinheiro foi utilizado para abater dívidas dos governos federal e estaduais. Mas por que a dívida pública aumentou no governo FHC?

De novo, a resposta é simples. Há abundantes estudos mostrando, centavo por centavo, como se formou a dívida pública, a começar pelos anos seguidos em que o governo gastou mais do que arrecadou. Note-se: o setor público brasileiro passou a fazer superávit primário apenas a partir de 1999.

Mas há outros fatores de endividamento, como o reconhecimento dos “esqueletos”, as dívidas e buracos de estatais que ficavam escondidos.

Querem um bom exemplo? O governo FHC colocou R$ 8 bilhões para sanar as finanças do Banco do Brasil, buraco aberto por práticas típicas de um banco estatal, o de emprestar, a juros de nada, para empresas e setores que sabem desde logo que não precisarão pagar.

Só o reconhecimento desses esqueletos contribuiu com dívidas equivalentes a 10% do Produto Interno Bruto, ou um quinto do endividamento líquido total.

Outros fatores que aumentaram a dívida foram a desvalorização do real de 1999 até 2002 e as elevadas taxas de juros reais. Na Fazenda e no Banco Central encontram-se estudos mostrando a contribuição de cada fator e, em especial, indicando como a dívida pública teria sido explosiva se parte expressiva não tivesse sido abatida com o dinheiro das privatizações.

Os tucanos também ficaram com medo da acusação de que venderam mal as estatais.

O pessoal olha o tamanho da Vale hoje e diz que saiu a preço de banana. Bobagem. É como o sujeito que vende uma casa caindo aos pedaços e depois, vendo a residência reformada, acha que perdeu dinheiro.

As telefônicas, então, saíram caríssimas, foram vendidas no auge da bolha das telecomunicações.

O BNDES emprestou dinheiro? E recebeu de volta.

E assim vai.

Tudo bem, dizem tucanos, mas a privatização ganhou má fama. Pois claro, os autores ficaram com medo, fugiram do debate. Sequer se lembraram de atacar as privatizações que deram errado mesmo, como a dos Correios, no atual governo, privatizada para o PTB e PMDB.

 Publicado em O Globo, 26 de outubro de 2006