Publicado em O GLOBO, 12 de outubro de 2006

Neoliberal, quem?

Carlos Alberto Sardenberg

 

 

            O presidente Lula acusa o tucano Geraldo Alckmin de “privatizador” e espalha por aí que ele pode até vender o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e a Petrobrás. Alckmin sustenta que isso é uma mentira e uma calúnia.

            Assim, a privatização entrou no debate eleitoral mais ou menos como satanás em uma igreja. E entretanto, basta dar uma olhada por aí para encontrar fartos argumentos a favor da privatização.

            Nos escândalos produzidos pelo governo Lula – valerioduto, mensalão, compra do dossiê – sempre aparece o Banco do Brasil. Começou lá atrás, quando a instituição comprou ingressos para um show de arrecadação de fundos para o PT. Depois, o BB apareceu como cliente das agências de Marcos Valério, tendo um de seus diretores, responsável pela propaganda, como destinatário de um pacote de dinheiro vivo. Agora, um outro diretor do banco, Expedito Veloso (e diretor de Gestão de Risco!) , aparece como operador na tentativa de compra do tal dossiê.

            Expedito estava de férias quando atuou na operação, um outro diz que não sabia de nada e os ingressos se destinavam a clientes vip, mas terminou que todos foram afastados de seus cargos, inquéritos estão abertos. Se não era nada, não precisaria disso, não é mesmo?

            Essas atuações de dirigentes do PT acomodados em diretorias do maior banco do país levantam uma enorme suspeita. Banco é coisa séria, mexe com o dinheiro dos outros e, no caso, com recursos e interesses públicos. Tem que ser e parecer uma fortaleza de credibilidade. Mas o BB parece estar a serviço do governo Lula e do PT.

            Se diretores se metem em jogadas tão escandalosas, e primárias, a gente tem o direito de pensar: o que mais estarão fazendo?

            É verdade que o BB é uma sociedade anônima, tem ações em bolsa, presta conta aos reguladores do mercado. Mas é difícil, praticamente impossível apanhar desvios em gastos com publicidade, como já se viu. Além disso, é possível que a instituição seja levada a  fazer operações de risco inaceitável apenas para atender políticas e planos do governo, como emprestar para setores, empresas e pessoas não qualificadas tecnicamente.

            Dirão que estamos exagerando nas suspeitas. Mas foi exatamente assim que quebraram os bancos estaduais, inclusive o Banespa, deixando uma conta para o contribuinte de mais de R$ 40 bilhões.

            É ou não um poderoso argumento a favor da privatização? A própria democracia está em jogo se o maior banco do país pode ser utilizado a favor dos governantes do momento.

            E o caso da violação do sigilo bancário do caseiro Francenildo, crime praticado pelo mais alto dirigente da Caixa Econômica Federal? De novo, se fizeram isso, algo tão tosco e primário, o que mais estarão fazendo?

            O PT sempre se opôs às privatizações, assim como, para dar um exemplo do lado tucano, o falecido Mario Covas. O argumento era o mesmo: governantes sérios e honestos colocariam as estatais nos trilhos. Mas a democracia, como temos visto por aqui, não é garantia de que não serão eleitos corruptos, mal intencionados ou apenas incompetentes. E podem se eleger governantes para os quais as estatais estão aí para isso mesmo, para servirem ao programa de seu partido.

            Não pode ser assim. Deveriam estar a serviço de interesses nacionais, reconhecidos por todos. Difícil definí-los? Mais difícil ainda distinguí-los dos objetivos partidários? Certamente e é por isso mesmo que a privatização é uma boa idéia.  

            Alguns dizem que não é possível fazer política econômica sem controlar grandes bancos. Bobagem. Há países que não têm bancos estatais comerciais e funcionam muito bem, a começar pelos Estados Unidos, onde, aliás, a regulação bancária é mais rigorosa.

            Mas não, a privatização não emplaca por aqui. É acusação.

Sabem por que? É que não se trata de uma plataforma apenas da esquerda. O centro e a direita, criados na cultura de obter tudo do Estado, também precisam de estatais para atender ao interesse de suas clientelas, que vai desde empregar os correligionários até gastar dinheiro e investir ali onde se tem votos, isso para não falar de outras práticas.  A novidade do governo Lula foi mostrar que, nisso, a dita esquerda republicana é igualzinha à direita fisiológica.

            E ainda dizem que isso aqui é neoliberal.

Publicado em O GLOBO, 12 de outubro de 2006