ISTO É DINHEIRO, 19-10-2005

Ruy Barbosa: ave de rapina?
Se vivesse hoje, o grande arauto da moralidade republicana poderia ser alvo de uma CPI

Por IVAN MARTINS

Uma das figuras mais influentes no Brasil da virada do século, o baiano Ruy Barbosa projetou para a história uma reputação de colossal probidade. A lenda mais difundida a seu respeito diz que Ruy - advogado, político e jornalista - seria tão desapegado das coisas materiais que sua mulher, Dona Augusta, era obrigada a abordar os que exploravam a sabedoria jurídica do marido com o bordão “O conselheiro come...”, numa sugestão de que a família passava necessidade e que era preciso pagá-lo. Essa é a lenda. A verdade, apenas murmurada por historiadores e especialistas do período, é que o primeiro ministro da Fazenda da República, empossado em 1889, a Águia de Haia que teria feito o mundo se curvar ante o Brasil na Conferência de Paz de 1907, o homem mais brilhante e erudito do País a seu tempo era, na verdade, um servidor público bem menos virtuoso do que seus admiradores imaginam. Pelos padrões éticos do século 21, Ruy Barbosa poderia ser acusado de corrupto, ou pelo menos leniente. Se vivesse hoje, poderia ser denunciado em CPI.

Crítico feroz do nepotismo, há evidências de que ele se desdobrou para empregar dois genros, um cunhado e um sobrinho no governo – além de deixar-se enredar por um deles, o cunhado Carlos Viana Bandeira, em negócios esquisitos, destinados a fazer dinheiro fácil. Bandeira usava o nome e a influência do cunhado ilustre para abrir portas no governo e na iniciativa privada. Inimigo declarado dos benefícios do Estado às empresas privadas, Ruy, porém, associou-se a companhias fajutas criadas com a finalidade de explorar monopólios e empréstimos concedidos pelo Estado. Arauto da moralidade, não se furtou a defender, quando ministro, os interesses do capitalista Francisco de Paula Mayrink, batendo-se para que o seu Banco dos Estados Unidos do Brasil obtivesse privilégios especiais. Com um currículo desses, nenhum político moderno conseguiria a unanimidade que cercou Ruy na velhice. “As pessoas são feitas de qualidades e defeitos”, diz o advogado Alberto Venâncio Filho, membro da Academia Brasileira de Letras e estudioso da biografia de Ruy. “O conselheiro era cercado por parentes que corriam atrás de dinheiro.”

Dois anos depois de deixar o ministério da Fazenda, Ruy comprou em 1893 um palacete de 30 cômodos na rua São Clemente, no Rio de Janeiro, ao preço de 130 contos de réis. A quantia era enorme, totalmente incompatível com os rendimentos de um senador sem outras fontes de renda. Nessa propriedade com proporções de parque, de nove mil metros quadrados, Ruy e a família viveram até a sua morte, em 1922. A compra da casa causou escândalo e levou Ruy a dar explicações ao Senado. Explicou em discurso famoso que o imóvel fôra comprado sem dinheiro – um amigo lhe emprestara 60 contos de réis, tendo como garantia a hipoteca de metade da casa, e um banco entrara com o resto, garantido pela metade restante da propriedade. Quando Ruy não pôde arcar com as prestações, outro amigo, o capitalista Antonio Martins Marinha, veio em seu socorro. Embora se diga que Ruy pagou os empréstimos, há nessa história amigos demais e cuidados éticos de menos. “O caso é intrincado”, diz o historiador José Murilo de Carvalho. “Pode ter passado ali um valerioduto.” Ainda que não tenha sido o caso, a casa famosa, onde hoje funciona o Museu Ruy Barbosa, serve como lembrança de que, no Brasil, nem mesmo o passado está livre de surpresas.