Jornal do Brasil, coluna JB Idéias, (19/01/08) sobre o Livro de Gustavo Franco "A economia em Machado de Assis".

 

 

O capital oblíquo, pelo olhar de Machado de Assis

Rodrigo de Almeida, 19/01

 

 

 

"E por que não trataremos um pouco de finanças?", questiona o narrador na série de crônicas Balas de estalo num longínquo setembro de 1883, reproduzido nas primeiras páginas da coletânea A economia em Machado de Assis, que o economista Gustavo Franco lançou recentemente pela Jorge Zahar. Adiante: "Tudo tem entrado no tabuleiro das balas; só as finanças parecem excluídas, quando aliás todos nós as amamos cá em casa, não só por motivos públicos, como por outros particularíssimos". Sim, e por que não tratar um pouco de finanças, pois mesmo que as desconheça (como quase todos) alguém haverá sempre de ser por elas impactado. Não seria diferente com o citado narrador naqueles tempos turbulentos da noviça República. "Vá, pois, de finanças", continua.

 

Eis o narrador machadiano aventurando-se por um tema árido por natureza, embora exiba, como de costume, texto saboroso, irônico, por vezes mordaz, às vezes audacioso, outras pueril, mas sempre revelador dos acontecimentos, principais e secundários, de uma época tumultuada. Hoje parece evidente que um cronista arguto, como Machado fora nas últimas décadas do século 19 e início do século 20, dedicaria letras e letras às transformações econômicas daquele tempo. Não precisaria ser um literato-economista para tanto. Sentia na observação do cotidiano político (seus "motivos públicos") ou no bolso (as razões "particularíssimas"). O difícil é identificar essas nuances de observação, dar-lhes forma e sentido a partir de um emaranhado de crônicas. Foi o que Gustavo Franco fez nesta coletânea - tão admirável quanto Machado.

 

O ex-presidente do Banco Central selecionou 39 crônicas, duas delas em forma de versos, que vão de 1883 a 1900. Abarca séries da Gazeta de Notícias, como as "Balas de estalo", "Bons dias!" e "A semana". Delas, insista-se, extrai-se um substrato considerável de uma história econômica da virada do Império para a República através do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Foi um período especialmente conturbado. Enquanto o povo assistia "bestializado" ao advento da Repúbica, segundo expressão clássica de Aristides Lobo, imperava a algaravia monetária, com vários bancos autorizados a emitir cédulas ou títulos da dívida pública.

 

O Encilhamento

 

O então ministro da Fazenda Rui Barbosa, na tentativa de estimular a industrialização, adotara uma política emissionista baseada em créditos livres aos investimentos industriais garantidos por tais emissões. A especulação financeira desencadeada pareceu inevitável. O Rio de Janeiro, em particular, padecia com a euforia especulativa. Era o chamado Encilhamento. Machado, diga-se, retrataria sarcasticamente aquele momento em Esaú e Jacó, romance de 1904. Em crônica, olharia o Encilhamento como uma multidão que se aglomera em frente à Bolsa de Valores do Rio.

 

Por precaução, estilo ou bobice, o cronista Machado defende-se a toda hora. Não se cansa de ressalvar a própria ignorância nos assuntos de finanças. "Não sei finanças", insiste. Autodefesa de cronista para fugir de eventuais perguntas, das mais simples às realmente difíceis. (O que o difere do Fernando Pessoa retratado por Gustavo Franco há cerca de um ano, quando reuniu, em moldes semelhantes, textos econômicos do poeta português). Nada, porém, escapa-lhe, sobretudo a figura do acionista - daí porque parece apropriadíssimo o subtítulo da coletânea organizada por Gustavo Franco, O olhar oblíquo do acionista. Seu olhar é lateral, arrevesado, oblíquo. Finge ver a realidade na perspectiva do acionista, e quem Machado apresenta como alguém radicalmente passivo.

 

Várias crônicas repetem a máxima de que o acionista, este indolente, "importa-se mais com os dividendos, que com os divisores" (administradores). Há um desinteresse crônico do acionista pelas assembléias. Quando a elas comparece, isso se dá à força, arrastado pelos empregados, para permitir atingir o quorum regulamentar. Como lembra Franco, esse acionista não é o investidor dos dias de hoje, mas o súdito do imperador, que entende que o governo é que manda na política econômica, que o Estado é que lhe paga o dividendo. Portanto, não haveria sentido participar daquelas reuniões para tratar de assuntos que, no fim, serão definidos pelo governo. Com o joguete literário, Machado desnuda a influência do Estado sobre todos os negócios existentes no país.

 

Outra lógica de investimentos

 

O acionista de Machado, notado por Franco a partir de sugestão do jurista e historiador Raymundo Faoro, está mais próximo do rentista de hoje - o proprietário rico, ocioso, que vive de rendas. Estes acionistas, lembra Faoro, agrupavam-se entre os rentiers, que viviam de rendas, rendas de escravos, de terras, de casas, de créditos, de valores. Há de se notar também que o investimento em ações naquele tempo obedecia a uma outra lógica. Graças à oferta de crédito, tendo o governo como fiador, garantiam-se dividendos sobre lucros fictícios. Era um investimento sem risco. Com essa observação, Gustavo Franco salva o capitalismo de nossos dias.

 

Machado não oferece maiores indícios de que era um crítico das inovações do mercado financeiro. Ou um liberal disposto a atacar um capitalismo pela metade. Diferente disso, fala de finanças mas se aborrece ao tratar de deficit público. Dispõe-se, no entanto, a falar de problemas complexos - dos impostos regionais inconstitucionais ao troco e emissões clandestinas dos municípios, dos impostos sobre charutos aos remédios importados, da flutuação cambial à balança de comércio. Sempre ambíguo e hesitante, posto que é um leigo no assunto. Mas por que não tratar um pouco de finanças?