Revista MUSEU, 03 / 01 /2008 - Livro resgata a visão de Machado de Assis sobre temas econômicos

RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - Uma coletânea de crônicas de Machado de Assis sobre temas econômicos compõe o livro O olhar oblíquo do acionista, que acaba de ser lançado pela Jorge Zahar Editores e também, em uma edição especial, restrita a clientes da Rio Bravo, pela Reler Editora. São 39 crônicas, duas delas em forma de versos, garimpadas pelo economista Gustavo Franco dentre as 600 que Machado escreveu. Os textos tratam dos grandes temas e polêmicas econômicas das duas últimas décadas do século XIX, começando pela preguiçosa rotina do Império, passando, logo a seguir, pela Abolição, pela República e pela sucessão de reformas modernizantes aí introduzidas. Machado também dedica muita atenção às reformas bancárias, à euforia especulativa, conhecida como "o Encilhamento", e às crises posteriores no câmbio, nos bancos e nas finanças públicas. No prefácio, e em pequenas introduções a cada um dos capítulos, Franco situa as crônicas no fluxo de eventos da história econômica, destaca o privilégio que é ter Machado a tratar de uma época tão rica de dramas pequenos e grandes em torno da economia e mostra, entre outras curiosidades, as agruras de Machado como investidor.

A edição é uma iniciativa da empresa Rio Bravo, da qual Gustavo Franco é sócio fundador e diretor. Este é o terceiro volume de uma série patrocinada pela companhia, cujo objetivo é buscar visões originais e inusitadas de grandes personalidades sobre temas econômicos e financeiros. A coleção foi inaugurada em 2005 com a publicação de O papel e a baixa do câmbio, reedição do discurso histórico de Rui Barbosa em 1891, que remete ao início da República e à luta já travada então entre ortodoxia monetária e heterodoxia. Para o segundo título, foram reproduzidos e comentados alguns ensaios sobre temas econômicos do poeta português Fernando Pessoa, conhecido pelos seus "heterônimos", e que parece revelar mais um "outro" através desses escritos. A economia em Pessoa, em razão da qualidade e atualidade do texto pessoano, foi muito bem acolhida pelo público e teve uma segunda edição pela Jorge Zahar Editores

Acionista-machadiano
Machado de Assis escreveu crônicas semanais, começando em 1859, ao longo de mais de quarenta anos, e com freqüência maior do que foi notado por seus editores tratou de economia. Com efeito, havia ocasiões onde este era o assunto dominante, e a surpresa é perceber que o olhar machadiano sobre os assuntos da economia nada tinha de ingênuo ou deslocado. As crônicas que compõem a coletânea foram escritas entre 1883 e 1900, época de imensas transformações na economia brasileira. É nada menos que um "privilégio historiográfico", como diz Franco no prefácio de "O olhar obliquo do acionista", que o leitor disponha de uma resenha dos grandes acontecimentos econômicos feita pelo nosso maior escritor.

Mais que isso, Gustavo Franco observa que, uma vez colocadas juntas, as crônicas "econômicas" parecem formar um enredo, uma história cujo personagem central, o acionista, sempre se apresentou como um pequeno mistério para os estudiosos da obra de Machado de Assis. O acionista, "uma das figuras mais equívocas da modernidade", como diz Sergio Paulo Rouanet na sua apresentação à coletânea, adquire sentido muito especial na crônica machadiana, pois serve como alegoria para um olhar efetivamente oblíquo sobre a atividade empresarial no Brasil do final do século XIX. O acionista machadiano não tem parentesco com o de nossos dias, tampouco se preocupa com as boas práticas de governança corporativa. Pelo contrário, este acionista "se importa mais com os dividendos do que com os divisores (administradores)", como observa em "Eu, acionista do Banco do Brasil", de 10 de fevereiro de 1888, escrito em forma de verso e assinada por um dos pseudônimos do autor, Malvólio.

O acionista, na verdade, é um súdito do Imperador, alguém que compreende que o capitalismo brasileiro da época era "uma idéia fora lugar", uma máscara sobre uma economia composta de concessões e privilégios todos emanados do Imperador, ou do Estado mais genericamente. O acionista é, na verdade, um rentista, razão pela qual não há por que molestá-lo com os rituais societários, uma vez que tudo é decidido pelo Imperador. Como observado por Franco em seu prefácio, esse "capitalismo de político", como na expressão de Raymundo Faoro, ou esta "nação mercantilista", como a descreveu Jorge Caldeira, ainda está vivo entre nós, e daí a curiosa atualidade do "acionista" machadiano.   

Este acionista preguiçoso e desinteressado é violentamente sacudido pelo surto de modernização que se inicia com a República e que parece alterar de forma radical o modo como as empresas se formavam e se desenvolviam. Machado trata de forma maravilhosamente oblíqua dos dilemas da modernização e das grandes polêmicas envolvendo a política, a moeda e os bancos. Seu olhar irônico alcança a Abolição, o bonde elétrico, a demolição dos cortiços, a explosão especulativa, o papel moeda, a ascensão da burguesia argentaria, as falcatruas do Encilhamento, incluídas as debêntures da Companhia Geral das Estradas de Ferro, as fusões e liquidações bancárias, os mistérios do câmbio, a inflação, tudo isso visto como um enredo que retorna ao ponto de partida. As promessas de Progresso trazidas pela República forneceram material extraordinário para este cronista, tanto quanto a frustração desses desígnios.

Na última das crônicas da coletânea, a penúltima que escreveu na Gazeta em 1900, Machado encerra o ciclo do acionista voltando ao ponto de partida: nesta crônica Machado relata o comentário que ouviu de um conhecido 30 anos antes, na porta do Banco Rural e Hipotecário, que falira naquela semana: "Que a diretoria administre, vá, mas que lhe tome o tempo em prestar-lhe contas, é demais. Preste dividendos, são contas vivas. Não há banco mau se dá dividendos."

Os testamentos e as finanças machadianas
Por vezes o cronista parece confessar-se acionista do Banco do Brasil, o qual, efetivamente, pagou dividendos de forma religiosa, mesmo quando a partir de lucros fictícios. Não é certo, todavia, que Machado tenha sido acionista do Banco do Brasil, mas em 1895, atraído pelos juros pagos pela jovem República, Machado de Assis adquiriu apólices de um empréstimo nacional, o qual, desafortunadamente, seria alcançado pela moratória de 1898, ano em que escreveu seu primeiro testamento, aos cinqüenta e nove anos, legando as apólices, seu principal patrimônio, para sua esposa Carolina.  Gustavo Franco reproduz os dois testamentos manuscritos pelo escritor, o segundo feito em 1906, depois do falecimento de Carolina, onde declara como herdeira, como se sabe, a sua sobrinha Laura. Menos notado, contudo é o fato de que, devido às moratórias posteriores à de 1898, em 1914 e 1931, o patrimônio deixado para a menina Laura foi devastado.
Privilégio historiográfico
Segundo o filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras, Sergio Paulo Rouanet, "Gustavo Franco introduz e comenta os textos de Machado de Assis, contextualizando os fatos que ganharam a atenção e o olhar do cronista. A economia em Machado de Assis é, assim, um privilégio historiográfico, a chance de visitar o passado brasileiro, em um momento rico e tumultuado, com a companhia de um dos grandes escritores da literatura mundial e um dos mais brilhantes economistas do país".

O olhar oblíquo do acionista, editado pela Reler, é uma edição especial destinada a clientes da Rio Bravo. A edição comercial, disponível nas livrarias, editada pela Jorge Zahar, tem como título A economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista  (R$ 44,00).