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ECONOMIA
PUC no poder

Como o curso de economia participa do comando do país, do Plano Cruzado ao PT

Rachel Lopes, Fernanda Chinelli, Patrícia Pascoal e Maria Vianna

Sérgio Dutti/ÉPOCA
ARMINIO E MALAN
A dupla que dirigiu os destinos do país no segundo governo FHC

Talvez você não tenha percebido, mas existe um economista da PUC-Rio em sua vida. Arminio Fraga, Persio Arida, Gustavo Franco, André Lara Rezende, Elena Landau, Francisco Lopes, Winston Fritch, Pedro Bodin, Edmar Bacha e Marcos Lisboa são alguns dos ex-alunos e ex-professores do curso de economia que tiveram papel decisivo na história recente do país, da gestação do Plano Cruzado ao susto do Plano Collor, da estabilidade do Plano Real até o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Neste mês, o ex-aluno de engenharia da Politécnica Pedro Malan começa a dar aulas na PUC-Rio. Ministro da Fazenda que mais tempo ficou no cargo na história da República, Malan é o representante do que se convencionou chamar de "escola de pensamento da PUC", que prioriza a estabilidade fiscal, a cambial e a monetária como pressupostos para o crescimento econômico. É o que os críticos chamam pejorativamente de "neoliberal".

"Economia na PUC: compre o diploma e venda seu país". A frase, pichada em maio deste ano em um dos murais do Departamento de Economia da PUC-Rio, expressa, em termos radicais, a opinião dos críticos. "Bobagem, recalque e ciúme. Excelência acadêmica e profissionalismo é algo que a PUC-Rio tem e boa parte da 'concorrência' não tem", contra-ataca Gustavo Franco, ex-aluno da faculdade e ex-presidente do Banco Central no governo FHC em entrevista por e-mail a ÉPUC. Marina Figueira de Melo, coordenadora da graduação do Departamento de Economia da PUC-Rio, completa: "Se existe alguma questão importante para o Brasil, a gente procura estudar e discutir. Pensamos nos problemas mundiais, mas adaptando os casos para a realidade do país". A coordenadora cita como exemplo a tese de doutorado do próprio Gustavo Franco, intitulada O Comportamento Econômico em um Contexto de Alta Inflação: um Estudo da Hiperinflação Alemã. No estudo, Franco fez, em 1987, uma análise sobre a hiperinflação na Alemanha pré-nazista, adaptando sua análise para o Brasil.

Em entrevista por e-mail, o ex-presidente do BC Arminio Fraga se classifica como "um liberal com preocupações sociais" e atribui à PUC a preocupação em combinar "rigor analítico, empírico, institucional e histórico (sem dogmas) com uma visão social progressista motivada pelas enormes carências do nosso país".

Mirian Fichtner/ÉPOCA
"Quem critica a PUC tem recalque e ciúme. O que tem aqui é excelência acadêmica"
GUSTAVO FRANCO, ex-presidente do BC

O curso de economia da PUC-Rio foi criado em 1963 - até então, fazia parte da Escola de Sociologia e Política. Após 15 anos, já com uma sólida reputação, o Departamento de Economia deu início ao programa de pós-graduação. Confirmando a qualidade de ensino, o curso foi apontado como o melhor do Brasil, com conceito A e as melhores médias nos quatro anos consecutivos do Provão do MEC. Durante esse período, foi dada ênfase ao conhecimento teórico e ofereceu-se a base instrumental, ou seja, matemática, estatística e métodos quantitativos. Marina de Melo ressalta: "Essa ênfase é uma característica nossa. Nossos alunos têm a opção de fazer as matérias de cálculo - do curso de economia - na área da engenharia". Exemplo disso é que, durante o curso de graduação, Pedro Bodin, ex-diretor do Banco Central e gestor do fundo do ex-banco Icatu, escolhia como eletivas matérias de cálculo da engenharia, para treinar sua habilidade.

Outra característica do curso da PUC é o fato de os alunos serem fortemente estimulados a complementar seus conhecimentos acadêmicos nas melhores universidades do mundo. Winston Fritsch, ex-decano do Centro de Ciências Sociais da PUC e secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no governo FHC, afirmou a ÉPUC: "Não queríamos que nossos alunos fizessem pós-graduação na própria universidade. Tomamos muito cuidado com algo que os americanos chamam de inbreeding, ou seja, acadêmicos que ficam a vida inteira em uma mesma universidade e acabam deformando a "genética" daquela instituição. O departamento se esforça em mandar alunos para universidades européias e americanas para depois pegá-los de volta".

"O que nós fizemos, de fato, foi uma crítica radical a um modelo totalmente fracassado que criou enormes índices de desemprego e índices de desigualdade na distribuição de renda, em nome de um desenvolvimentismo do qual só se aproveitou uma pequena parcela da população", diz Fritsch.

Selmy Yassuda/ÉPOCA
PUC
Nenhuma universidade influenciou tanto os destinos econômicos do Brasil

Na opinião do colunista de economia de O Globo, George Vidor, "não faz sentido" afirmar que a PUC tem uma linha única de pensamento.ä "Por causa da mídia, ficou caracterizado que a PUC tem uma linha liberal. Mas eu acho que não, que depende muito de quem está à frente do departamento e que por felicidade e por competência consegue, de maneira brilhante, divulgar seus trabalhos acadêmicos e verbalizar o seu pensamento econômico. É problemático carimbar e rotular as coisas, mas como os jornalistas têm dificuldade de passar informações para o público de uma maneira que todo mundo entenda, é preciso criar fórmulas para explicar conceitos da maneira mais simples possível", defende o jornalista.

Mas não há consenso em se tratando da PUC-Rio. Em recente entrevista, o diretor do Instituto de Economia da Unicamp, Paulo Baltar, compara as duas universidades com críticas ao modelo PUC-Rio: "A formação econômica dos docentes da PUC não tem a ênfase que nós damos aos componentes sociais e que estão estritamente relacionados com os componentes econômicos. Eles vêem a coisa econômica de um modo isolado, enquanto nós destacamos um pouco mais as conseqüências das linhas econômicas que o país segue em relação à sociedade brasileira, à maneira de conviver do cidadão", afirma o professor.

Mais do que nunca, nos últimos meses, essa discussão está em evidência e os economistas formados pela PUC dela participam defendendo o modelo econômico adotado pelo último governo e, por tabela, ao menos em linhas gerais, o que vem sendo implementado pelo governo Lula. Querendo ou não, a PUC paga hoje o ônus de ter tido tantos ex-alunos no último governo. Essa imagem está tão arraigada que recentemente o ministro Antônio Palocci foi questionado sobre a aparente contradição no fato de um governo petista convidar os economistas Afonso Sant'Anna Bevilaqua e Eduardo Loyo, dois "ortodoxos economistas da PUC", para o alto escalão do governo: "O que é que vocês têm contra a PUC?"

"Nunca fomos ortodoxos"

De volta à PUC, Elena Landau conta como as aulas influenciaram os planos antiinflacionários

Ivo Gonzalez/Ag. OGlobo

ELENA
Com experiência de doutora, a economista retornou à PUC como aluna

Elena Landau faz parte do grupo de economistas que saiu da PUC para transformar o país. Foi a principal operadora do processo de desestatização no governo Collor e no de FHC e participou das discussões sobre a estabilidade de preços no Plano Real. Num gesto surpreendente de humildade, voltou aos bancos da PUC para se formar em Direito. No intervalo de suas aulas, falou a ÉPUC:

ÉPUC - A PUC segue alguma linha?
Elena Landau -
Não acho que a PUC seja nem conservadora nem ortodoxa. Toda a formação que a minha geração de economistas teve foi a de como combater a inflação sem gerar recessão. A grande contribuição da PUC, que acabou culminando no Plano Real, foi como lidar com uma inflação indexada sem fazer o receituário ortodoxo. Então, a PUC de ortodoxa não tem nada. Pelo contrário, na minha época, era chamada heterodoxa. Para você ver como o tempo muda.

ÉPUC - Por que que tanta gente da PUC é chamada para o governo?
Elena -
Porque o aluno de economia da PUC tem uma visão de instrumento de política econômica. Você está sempre lidando com os problemas reais da economia. Na minha época era a macroeconomia, hoje são problemas microeconômicos de eficiência.

ÉPUC - Quais seus projetos atuais?
Elena -
Trabalhei durante muitos anos com conjuntura econômica, porque adorava essa discussão sobre inflação, depois fui trabalhar na reforma do Estado. Trabalhei muito, fiz privatização e hoje o que gosto realmente de fazer é entender questões de regulação, trabalhar com Direito e economia. Por isso voltei à faculdade.

ÉPUC - Qual é sua linha?
Elena -
A linha de se descobrir a característica da inflação brasileira. A linha de todo mundo é relacionar estabilidade com crescimento. Hoje não há mais diferenças entre escolas porque a questão da indexação foi resolvida.

ÉPUC - Qual a contribuição da PUC em sua formação?
Elena -
A idéia de que você tem a possibilidade de ter um papel público na carreira. E tinha sempre o viés do estudo: quanto melhor sua formação, melhor você vai ficar no mercado de trabalho. Não adianta ir trabalhar muito cedo, porque você fica limitado. A PUC é uma referência. Não posso me imaginar estudando em outro lugar que não seja a PUC.

Leia a íntegra da reportagem

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