24 de janeiro de 1993

Folha de São Paulo

As reservas e as estradas

GUSTAVOH. B. FRANCO

 

O paciente com leucemia jaz desacordado sobre a  cama e o patriarca da família apresenta um renomado especialista à junta médica até então responsável pelo doente. O especialista, profissional imensamente experiente, arregala os olhos detrás dos óculos fundo-de-garrafa, sacode suas gordas bochechas e sugere que o paciente deve movimentar-se, tomar sol, fazer “jogging”, gastar suas últimas reservas de energia em um ousado e inusitado tratamento.

 

A equipe médica, surpreendida, se vê “de saia justa”. Os piores instintos do patriarca parecem aflorar. A família se assanha com a perspectiva de encerrar um longo período de austeridade e convalescença. Há otimismo no ar.

Os médicos, ainda pasmos, cochicham entre si: como é que o dr. Golfinho (o especialista) nos inventa um tratamento desses? Certamente não por convicção heterodoxa: ele jamais recomendaria algo assim, fosse ele o responsável pelo doente.

Por que então a sugestão irresponsável? Q que tem em mente o dr. Golfinho?

Os médicos sabem que o dr. Golfinho se tornou, por merecimento ou pelas artes da mídia, pouco importa, o maior de todos os frasistas maliciosos em um pais de desconfiados e línguas venenosas.

O homem do nó em pingo d'água e outras proezas. Enxergam-lhe dotes de Maquiavel, até quando declama trechos do “Pequeno Príncipe”.

Mas terá realmente alguma coisa em mente o dr. Golfinho, ou não estará apenas brincando de Rasputin, soprando, por puro enfado, barbaridades nos ouvidos de um czar ensandecido?

Ou não estará posando de artista de vanguarda, daqueles que embrulham uma montanha ou uma ponte, confundindo as obviedades do cotidiano e ninguém entende porque.

Pois bem. Volta o dr. Golfinho à sua clínica e o doente, resignado, assiste aos médicos lutando para convencer ao patriarca que torrar as reservas consertando as estradas não é bom negócio.

O desânimo é indisfarçável. Na semana anterior, um outro especialista, consultado pela família. tinha dito que se podia consertar as estradas com a correção monetária que o Banco Central (BC) paga ao Tesouro.

Além disso, discute-se também a pena de morte, o preço dos remédios, um ajuste fiscal de mentirinha. Até onde iremos com as excentricidades?